Papo Cético #00 – ¿O Que é Ceticismo?

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Papo Cético #00 - ¿O que é Ceticismo?Este é o episódio piloto do novo projeto do Mitografias, o Papo Cético, o nosso podcast sobre pensamento científico onde, mensalmente, vamos nos reunir para discutir e conversar sobre diversos temas, principalmente questionando o conhecimento que temos das coisas e jogando dúvidas sobre nossas crenças. Neste nosso primeiro episódio, Pablo, Estrela, Karol, Bryan e Leonardo conversamos sobre o que é ceticismo e falamos um pouco sobre o projeto do Papo Cético.

Duração: 57 minutos

 

 

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Padrim do Mitografias

  • E aí pessoal, mais uma iniciativa legal! Muito show! Posso aproveitar e tentar tirar uma dúvida existencial minha? A questão é tem como ser um religioso cetico? Kkk 😊 Perai vou tentar explicar.

    Usando o exemplo da fada do dente… O Niel não disse que ela não existe, logo não teve uma posição de descrédito e encorajou o experimento. Se não tivermos posições presas a dogmas não seria válido experimentar experiências religiosas para aumentar sua reflexão, conhecimento do imaginário e lendas e desenvolvimento da sua auto reflexão?

    No nível existencial, nível de sobrevivência concordo com o Shirman, realmente seu conceito é muito bom. Mas e as dores da alma? Qual a diferença para eu que sou leigo experimentar a psicologia ou o centro espírita? Ou terreiro de umbanda?

    Quando escolho ir num psicólogo não estou dando, atribuindo o mesmo crédito que atribuo a mãe de Santo?

    E pior que é mais difícil de digerir para mim: e se minhas experiências religiosas que me trouxeram resultados até hoje, são parte da realidade que a ciência ainda não incorporou?

    Desculpem a confusão nas perguntas, mas realmente tive que ter coragem para expor está minha dúvida do coração.

    Abraços, de um engenheiro, gerente de projetos, cético, umbandista e que adora os mitos e o modo de pensamento de vcs!

    • Olá, Rodrigo!!
      Obrigado pelo apoio dado e pelas perguntas, que são excelentes! Vou tentar responder, na medida do possível.

      Pra mim, obviamente, o ceticismo é sempre preferível a uma postura de credulidade. Mas, como disse, talvez possa existir espaço para crenças, mas eu ainda não encontrei. Sei que já existiu, mas não sei se hoje em dia precisamos de algo assim. Porém, como fica a religião diante disso, certo? E, pra isso, precisamos entender a religião – independente das crenças…

      Acho que caberia todo um novo episódio só pra falarmos sobre isso, mas vou tentar resumir aqui minha posição: quando falamos sobre religião, temos que diferenciar a Instituição Religiosa e seus dogmas e crenças da postura pessoal religiosa, a religiosidade. A Instituição Religiosa – seja uma igreja, um terreiro, um templo ou qualquer outra organização formal – possui uma função social clara: organizar as práticas e relações sociais de um determinado grupo. Só que a ferramenta utilizada para isso são os dogmas e crenças, fazendo com que esse controle social possa acontecer mesmo à distância (pois Deus está em todo lugar), sem necessidade de vigilância pessoal – como no caso da polícia (basta ver o que as pessoas do ES estão fazendo hoje em dia). Então, a religião passa a ser uma instituição de controle social do comportamento individual, pura e simples. Mas, podemos ter esse controle sem crenças e dogmas, certo? A ética serve justamente para isso, para discutirmos e concordarmos justamente nas nossas posturas e condutas sociais – e, como disse algum pensador, se você precisa de religião para se comportar decentemente, você não é ético: é adestrado.

      Agora, a religiosidade é algo completamente diferente, pois ela se refere a uma postura pessoal diante do mundo. Por algum motivo histórico – complexo demais pra explicar aqui – jugamos a religiosidade como sendo uma experiência interna do sujeito, incapaz de escrutínio objetivo. Porém, isso é falso, pois a religiosidade não fala de questões de foro íntimo, mas fala da relação que o sujeito possui com o mundo! E é aí que as coisas ficam complicadas, pois diante da minha crença pessoal e da evicência objetiva, qual deve ter mais valor? Eu, como cético, aposto na evidência objetiva e que a minha crença – quando não concorda com a evidência – está errada. E, se a crença sempre perde para a evicência, o que seria melhor: possuir crenças ou possuir evidências? Eu fico com as evidências sempre… O problema é que a evidência por si não basta sem uma compreensão teórica sobre ela – e isso vai ser tema de um episódio futuro nosso!

      Mas mesmo com a evidência, ainda existe a religiosidade, que precisa ser compreendida como um fenômeno psicológico, já que ela fala de uma posição subjetiva clara. E, enquanto um fenômeno psicológico, eu gosto da psoição de Jung a respeito. Ele compreende que existem duas formas de apreendermos a religiosidade, uma forma racional e outra irracional. A forma racional é através das crenças (que são valores racionais) e dogmas (verdades não-questionáveis também racionais) e, geralmente, possuem ideias a respeito de três temas: existe algo transcendente, que vai além da nossa existência perceptível; sofremos uma queda ou distanciamento desse transcendente que nos torna incompletos e/ou imperfeitos; existe um caminho de salvação que nos retornará a esse transcendente, seja em vida ou em morte. Esse conjunto é o núcleo básico de todas as religiões que partem dessa premissa racional, que Jung atribuiu à etimologia “Religare”, do latim Re-Ligar (ao transcendente). Mas a postura irracional, do latim “Religere” ou “Relegere”, que significa reler, aponta para uma atitude de “cautelosa observação ou consideração”, pois é isso que fazemos ao relermos algo, certo? É irracional pois baseia-se basicamente na percepção do mundo à nossa volta, sem crenças (valores) ou dogmas (explicações). É uma atitude mais de vivência e contemplação do que de defesa racional de ideias. Então, a religiosidade irracional independe de crenças e pode sim ser cética! Tanto é que se você observar, boa parte dos céticos ateus possui uma atitude de maravilhamento diante da natureza e do mundo, semelhante às mais profundas experiências religiosas. Sugiro você experimentar assistir a este vídeo e contemplar seu texto desta forma: https://www.youtube.com/watch?v=brLOlmnLn8c

      Agora, sobre suas experiências religiosas que trouxeram resultado, cabe unicamente a você se questionar: a explicação dada pelo dogma/crença é suficiente ou será que eu preciso de algo mais evidente? Pra mim, a evidência sempre prevalece, logo, prefiro buscar outros caminhos. Porém, é claro, que a ciência (maior ferramenta cética que conhecemos) não consegue explicar tudo! Mas isso não quer dizer, obviamente, que se a ciência não responde, logo a religião está certa, pois isso é o que chamamos de “apelo à ignorância” – o que soa quase tão ridículo quanto dizer que, se eu não sei como os egípcios construíram as pirâmides, logo foram os alienígenas que fizeram isso!

      Arthur C. Clarke, ao falar sobre ficção científica, elabora três leis, e a terceira diz: Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia – que podemos extrapolar para dizer que se algo acontece na natureza que eu não conheço seu funcionamento, fica mais fácil eu compreendê-la como sendo mágica ou divina! Mas isso é apenas uma posição diante da ignorância ou da incapacidade de admitir ignorância, pois para muitos é mais fácil, ao invés de responder “Eu não sei, que tal tentarmos descobrir?”, simplesmente dizer “Isso foi vontade divina e não cabe a nós questionarmos”… Mas, mesmo assim, isso não nos impede de termos uma atitude religiosa irracional, mesmo tendo o conhecimento racional do mundo. É como disse o psicólogo estadunidense B.F. Skinner: “Só porque explicamos o arco-íris, isso não o torna menos belo”… 😉

      E, novamente, muito obrigado pelo carinho!

      • Mr Pablo,

        Que honra tua resposta meu amigo! Não conta para ninguém mas me emocionei kkk… Sério, sem ser piegas, mas a parte da religiosidade irracional cética, acalmou minhas dores profundamente.

        Minha esposa ateia de carteirinha, com este amor e admiração à natureza, e eu, umbandista que frequento e estudo, mas não com a razão, mas com a experimentação, ficamos eternamente gratos. Com teu texto, aliás com o trabalho que vocês tem feito no papo Lendário, e agora aqui, estão desfazendo alguns nós.

        Eu continuo achando, como tu citas, que a evidência é o que nos conforta. Mas ao mesmo tempo, continuo frequentando, e aprendendo com as experiencias e rituais, formas de melhor me compreender e relacionar com o mundo. Para mim, o importante, não estaria nos dogmas, vejo ele mais como lendas e mitos, que nos ajudando a organizar a “cachola”. E ainda contemplo os rituais, pois eles me fazem passar por jornadas de entendimento, que estão fora das palavras, estão no dia a dia, na organização social, não como controle, mas como exercício da moral.

        Será que um dia, estas experiências e rituais, não serão parte de evidências ou nos indicarão caminhos de melhorias sociais? Não consigo, saber a resposta, e não quero tornar a religião algo cientifico. Mas a minha proposta de dúvida e pensamento, é o que fazemos quando chegamos no limite do conhecimento? Como lidar com a angustia da ignorância? Nestas dor d’alma, nos caminhos sombrios das nossas jornadas, termos rituais que nos levem a contemplação não seriam passos para o nosso conhecimento? Enfim, to aqui gerando pauta apenas… kkk, mas essencialmente tentando contribuir com a minha experiência.

        Não deixo nunca de atribuir crédito, na ciência, nem ao menos de saber dos valores que aprendo com os meus rituais, e aprendi a separação entre os dois. Aliás, aprendi também contigo, que religiosidade, não é religião, e aliás, isso não deve ser compartilhado. Ser casado com uma pessoa ateia me trouxe este ensinamento, levar a religião ao outro é imposição e desrespeito. As portas estão abertas, mas só entra quem quiser, e se não entrar, e tudo bem também! kkk

        Por fim, de novo, ficou muito legal o episódio, a equipe, a felicidade do Leo de ver os projetos em desenvolvimento. Teu texto e modo de condução. A trilha achei fodástica!!! Só a ultima trilha, se sobre pos um pouco com o teu texto que tava muito show, mas ficou um pouco dificil de escutar!

        Meus amigos, vida longa a mais este projeto e obrigado!

        • Se me permite, a filosofia no séxulo XX já tentou responder algumas de suas perguntas. Primeiro, a angústia da ignorância deve ser abraçada e usada como motor de novas descobertas e estudos. Segundo, para avançar os lmites do conhecimento, usamos de recursos como a Ficção Científica que extrapola o que sabemos e mostra novas possibilidades aos pensadores e pesquisadores. E os ritos religiosos vão servir justamente para orientar as práticas sociais, mas não necessariamente o conhecimento a cerca do mundo, porque quando essas práticas negam o que estamos descobrindo, adivinha quem deve prevalecer entre os ritos e o conhecimento? 😉

          • Meu grande amigo Pablo, muito obrigado! Só para compartilhar, tua análise e respostas, foram muito legais para minha esposa. Ela ficou feliz demais: e respostas dela ao teu texto: é isso! kkk Valeu amigo, vida longa aos teus trabalhos e propostas!

  • Helio de Paiva Jr

    Adorei o programa, e a trilha é maravilhosa!
    Parabéns!

  • Heitor A. Francisco

    Interessante o programa. Mas eu queria deixar uma sugestão pro próximo:
    Por favor, sério, falem sobre os Terraplanistas!

    • A gente tem planos sim de falar da Terra Plana, mas talvez em um Papo Lendário, ou talvez aqui, ou talvez nos dois, quem sabe!!

    • Se a gente for falar sobre isso aqui no Papo Cético vai ser um episódio pra mostrar como se constróem argumentos falhos, sem coerência alguma. Mas queria falar sobre isso no Papo Lendário, em um episódio focando nos mitos sobre a Terra: Terra Plana, Terra Oca, seres intraterrenos, etc, etc… Tem bastante coisa bacana pra falar disso! =D

      • Sim! Só no PL ja tem bastante assunto, to até folheando um livro do Humberto Eco que fala um pouco disso. E claro teremos que resgatar nosso geólogo de estimação que ta sumido de alguns episódios! rs

  • Poxa, excelente o papo! Estou pensando seriamente em usar esse programa em sala de aula para trabalhar filosofia da ciência com alunos dos segundo e terceiro anos do ensino médio. Haveria algum problema?
    No mais, uma pequena dica: acho q a mesa com o número de participantes que teve ficou muito pouco proveitosa. Talvez seja melhor fazer um programa com menos participantes, mas com mais espaço para cada um expor melhor seus argumentos.
    No mais, parabéns pela iniciativa, e contem com mais um ouvinte regular!

    • Olá Marcos! Fique à vontade, eu adoro quando vejo o material do site sendo aproveitado para aulas e estudos. E depois, nos conte o resultado. Quanto a equipe, por esse ser o piloto quisemos colocar ela completa para mostrar aos ouvintes, mas isso irá variar de cada episódio.

    • Oi, Marcos! Use à vontade em aula e convide seus alunos a comentarem aqui também… Inclusive, acho que os próximos episódios também lhe vão ser úteis… =D

  • João Felipe

    Hei caras, gostei bastante do piloto.
    Só uma crítica: A música não estava combinado.
    Durante alguns momentos o som estava muito alto e atrapalhando, principalmente na reflexão final do Pablo.

    PS: Estrela, casa comigo?

    • EstrelaStein

      XD

  • Fábio Fontana de Souza

    Oi Galera.
    Primeiramente é legal falar que adorei o projeto. Uma sugestão logo de cara é analisar várias situações cotidianas de forma cética, por exemplo a ficção científica, como no caso da série Black Mirror, como um cético assiste a série?
    Bom, encaro o ceticismo como a suspensão de juízos, bem próximo do ceticismo pirrônico, mas com uma concepção mais atual. Diferentemente do que vi nos participantes prefiro “operar” com graus de certeza, de modo que algumas coisas atribuo pouco certeza, por exemplo sou agnóstico ateu, mas outras coisas atribuo maior grau de certeza por exemplo que estou diante do notebook mandando uma mensagem para meus amigos do papo lendário (considero amigos porque vcs me acompanham em minhas corridas e caminhadas). Mas nunca tenho certeza de nada e acho ingênuo achar que é possível formar um juízo definitivo sobre alguma coisa. No papo percebi que vocês relativizaram a ciência (o que achei ótimo), mas algumas vezes achei que vocês valorizaram muito o pensamento científico, o que desconfio fortemente. Gosto muito de uma frase do Eugênio Bucci que diz que talvez no futuro sejamos conhecidos como a fase da humanidade que as pessoas ainda acreditavam na ciência. Mas o que vem em seguida? Não sei nem se virá algo!
    Amigos, esperando os próximos episódios!
    Um forte abraço,
    Fábio