A História de Shakuntala

Papo Cético #00 – ¿O Que é Ceticismo?
07/02/2017
Escritos Lendários: Castelo Falkenstein
11/02/2017
Traduzido e Adaptado por Rafael Brito

Vishwamitra foi, há muito tempo, um dos importantes sábios da Índia. Ele nasceu rei, mas, por penitências, tornou-se um brâmane. Para agradar aos deuses, ele, certa vez, retirou-se para a floresta, onde viveu como ermitão durante anos. Conforme passava o tempo em meditação e penitência (Tapascharya), sua devoção tornava-se tão poderosa que os deuses sentiram-se inseguros. Para preservar seus interesses, os deuses decidiram fazer Vishwamitra desistir de sua meditação. Nesse intento, eles contrataram os serviços da ninfa celestial Menaka, que, com seu charme, deveria dissuadir o brâmane daquela prática.

Com esse objetivo malicioso, Menaka passou a viver junto a Vishwamitra, exercitando todo o seu charme para seduzi-lo. Inconsciente dos planos da moça, Vishwamitra, em sua fraqueza humana, acabou por ceder às investidas. Tendo capturado a atenção de Vishwamitra, Menaka logo venceu suas barreiras contra as paixões mundanas, e selou o destino do brâmane ao engravidar deste. Ao perceber que o poder de sua meditação estava arruinado, Vishwamitra enfureceu-se, mas nada podia fazer para reverter o dano. Assim, Menaka deu à luz uma rechonchuda menina chamada Shakuntala.

Com seu dever cumprido, Menaka retornou à morada dos deuses, mas teve de deixar para trás sua filha Shakuntala. Como Vishwamitra a renegara, voltando para sua meditação, Menaka decidiu deixar a criança em um ashrama (tradicional monastério hindu), onde seria criada e educada. Vivendo no ashrama, Shakuntala tornou-se uma moça adorável, rodeada de amigos, flores e seus coelhos e cervos de estimação. Certo dia, o rei daquele país, Dushyanta, decidiu ir à floresta para caçar. Enquanto perseguia um javali selvagem, ele deparou-se com o ashrama em que Shakuntala vivia e, no mesmo instante, pôs os olhos em um belo cervo, do qual fez um alvo para sua flecha. Assim que o cervo caiu em agonia, Shakuntala correu em seu socorro, ficando chocada ao ver seu animal favorito morrendo. Ela apressadamente removeu a flecha, tentando confortar o cervo. Essa visão tocante do afeto de uma moça por seu animal sensibilizou o rei profundamente, e Dushyanta implorou pelo perdão de Shakuntala.

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Em sua grande generosidade, Shakuntala perdoou o rei, com a condição de que ele ficasse por alguns dias no ashrama, cuidando do cervo que ferira. O rei aceitou prontamente e, vivendo no sereno ambiente do ashrama, sua afeição por Shakuntala logo se transformou em amor, e ele pediu a mão da moça em casamento. Com o consentimento dos anciãos, as núpcias se realizaram apropriadamente. Após alguns dias, Dushyanta recebeu notícias de que sua capital estava com problemas e que precisava retornar para lá. Antes de ir, porém, prometeu a Shakuntala que voltaria para buscá-la, deixando-lhe seu anel como lembrança. Em antecipação à hora em que seu amado retornaria, Shakuntala passava os dias sonhando com ele.

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Durante um desses momentos em que ela se esquecia do mundo ao redor, um famoso (e irascível) sábio visitava o ashrama e avistou Shakuntala sentada na soleira da porta. O sábio parou diante dela por algum tempo, mas Shakuntala não notou sua presença. Enfurecido com tal falta de hospitalidade, ele lançou a maldição de que aquele em quem ela estivesse pensando a esqueceria. O sábio já estava saindo do local quando um amigo de Shakuntala, que ouvira a maldição, chamou-o e explicou o motivo para o comportamento da amiga. Diante da explicação, o sábio amenizou a maldição, dizendo que o amado de Shakuntala a reconheceria se ela lhe mostrasse algo que recebera desta pessoa.

Shakuntala continuava a sonhar com seu amado todos os dias. Em um desses dias, para sua imensa alegria, percebeu que estava grávida de Dushyanta. Os dias transformaram-se em semanas, e as semanas, em meses, mas o tão esperado Dustyanta não apareceu. Com sua paciência chegando ao fim, Shakuntala decidiu não mais esperar. Acompanhada por seu pai adotivo, professor e alguns amigos, ela dirigiu-se para o palácio de Dushyanta. No trajeto, o grupo teve de atravessar um rio, e o fez em uma canoa. Maravilhada pelas imaculadas águas azuis do rio, Shakuntala não pôde resistir, e passou os dedos por elas. Sem que ela percebesse, o anel que Dushyanta lhe dera escorregou de seu dedo para as águas, enquanto o grupo prosseguia para o palácio. Chegando lá, Shakuntala não foi reconhecida pelo rei, conforme a maldição.

Após tentar, sem sucesso, fazer-se reconhecer por Dushyanta, a arrasada Shakuntala deixou o palácio. Envergonhada, ela decidiu viver sozinha em um local isolado, e lá deu à luz um menino saudável ao qual chamou Bharata.

O garoto cresceu junto à mãe, e era extremamente destemido. Em sua morada isolada, tinha por companheiros os filhotes de leão e tigre que encontrara na floresta. Este bravo garoto tinha por passatempo abrir a boca dos filhotes e contar seus dentes. Enquanto isso, no palácio de Dushyanta, um pescador apareceu, trazendo o anel que o rei dera a Shakuntala. O pescador achara o anel no estômago de um peixe que ele pescara e, ao ver o emblema real no objeto, decidira levá-lo ao rei. Ver o anel reavivou a memória perdida de Dushyanta, e ele correu ao ashram em busca de sua amada.

O remorso invadiu-o quando ele soube que Shakuntala já não estava lá. Como por providência divina, após alguns anos, durante uma caçada, o rei teve a estranha visão de um rapaz abrindo a boca de um filhote de leão para contar seus dentes. Desejando saber de quem o garoto era filho, Dushyanta desceu de sua montaria e perguntou-lhe o nome. Surpreendeu-se ao ouvir do garoto que ele era Bharata, filho do rei Dushyanta, governante daquelas terras; mas sua surpresa deu lugar a um imenso prazer quando o rei avistou Shakuntala saindo de uma cabana próxima. E assim a família pode finalmente se reunir. E o valente garoto cresceu, tornando-se um poderoso e benevolente rei, cujo governo foi imortalizado pelas histórias de tempos antigos.

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Bharat – filho de Shakuntala e Dushyanta
  • Sérgio Freire

    Esse Baratha é o mesmo ancestral dos primos no Baghavad Gita?