Papo Lendário #108 — A Cor Vermelha da Vida

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Papo Lendario 108

Neste episódio do Papo Lendário, Leonardo, Juliano Yamada, e Pablo de Assis conversam sobre o sangue.

Conheça todo o simbolismo do sangue.

Entenda porque o sangue é a essência da vida.

Aprenda a importância de doar sangue e como fazer.

Musica Final: Raining Blood — Slayer

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Padrim do Mitografias

  • Bruno Fasanaro

    Adorei o episódio, sempre acaba aprendendo alguma coisa nova com o Papo Lendário. Neste episódio por exemplo, achei muito interessante a analogia da lei mosaica com os período de “impureza do sangue”. Faz todo o sentido para a cultura que teve que ser firmada para a sobrevivência daqueles indivíduos. Mas mando essa mensagem antes de mais nada pra me queixar. Fiz um transplante de córnea e por causa disso não posso mais doar. No dia que eu descobri fiquei realmente muito triste, não que a regra seja infundada, mas meu tipo de transplante é muito mais simples que outro com risco de contaminação tendendo a zero.

  • Olá!
    Parabéns pelo episódio e pela abordagem ampla e esclarecedora. Gostaria de dar apenas algumas pequenas contribuições pra clarear a questão do bode expiatório e sua relação tipológica com a morte de Cristo.
    No judaísmo havia um complexo sistema de sacrifícios e ofertas. Podiam ser ofertados tanto animais de grande porte (boi, macho, sem defeito) por quem possuia as condições economicas para tal, como também podia ser um ovino ou caprino macho e sem defeito, ou para quem era pobre, uma pomba ou rola, agora quem realmente era muito pobre mesmo, poderia ofertar um jarro de boa farinha. O sangue do animal morto seria aspergido no entorno do altar. (cf. Levítico 1) Esta analogia cultica relembra o episódio da fuga do Egito, e que marca o evento da páscoa judaica. O sangue do cordeiro aspergido no batente da porta marcava as casas dos judeus, que seriam poupados da morte na última praga proferida por Moises contra os egípcios (Exodo 12.21ss). A diferença entre o cordeiro pascal e o holocausto pelo pecado, é que o holocausto (cf. Lv 1) deveria ser integralmente queimado, enquanto que o cordeiro pascal devia ser comido, sendo queimada apenas as vísceras e gordura.
    Havia ainda outras tanto tipos de ofertas: de gratidão (oferta de cereal – Lv 2), de comunhão (animais/cereais, Lv 3), por um pecado específico não-intencional (vide holocausto, Lv 4-5), de culpa por pecado não-intencional mas que requeria restituição de dano (Lv 5-7).
    Quanto ao bode expiatório, este não seria sacrificado, mas abandonado à si mesmo no deserto. Os animais sacrificados fariam a propiciação (Lv 16.1-19), cujo significado é pedir que Deus seja propicio/favorável ao povo. Os holocaustos (inteiramente queimados), representavam o sacrificio substitutivo. O ser humano, que devia pagar com a vida pelo pecado, seria substituido pelo animal. Por essa razão o animal não devia ser comido, mas inteiramente ofertado. Já o bode expiatório representa o fato de que Deus não admitiria o pecado no meio do arraial, expresso por exemplo na máxima cúltica “sede santos, pois eu sou santo”. O sacerdote imporia as mãos sobre o bode e confessaria os pecados do povo, estes seriam então simbolicamente transferidos e o animal seria solto no deserto, longe do acampamento. Desta forma se cumpririam as duas penas para o pecado voluntário (aquele intencional) também sobre os pecados não intencionais: o talião (morte) e a expulsão da comunidade. Os animais mortos são um pedido do povo a Deus para que ele seja favorável (propício) a eles, enquanto que o bode solto no deserto representa que o pecado deve ser removido do meio deles, fazendo assim a expiação do povo (latim: ex = de acordo com; piare= ser justo).
    Sobre a interpretação da expiação como pagamento pelo pecado, no sentido de uma justiça retributiva. (Explicamos todo esse complexo sistema e sua interpretação no BTCast #077 Levítico – http://bibotalk.com.br/site/podcast/btcast-077-levitico) Esta interpretação só aparece na história da teologia com a analogia à sociedade medieval, por Sto. Anselmo de Cantuária, onde Deus é o suserano e os seres humanos os vassalos. Como os vassalos por si mesmo não tem condições de pagar a divida, aprouve ao próprio suserano realizar um sacrificio pelos vassalos e pagar a divida destes. Desta forma a condição de justiça do suserano seria satisfeita, dai a teologia da satisfactio dei de Anselmo, que foi amplamente absorvida na teologia católica, e mais tarde revivida através da teologia da justificação forense por Martinho Lutero.
    Voltando ao ponto inicial, a analogia com Cristo se dá da seguinte forma: Cristo é identificado com o cordeiro da pascoa, que é sacrificado mas pode ser comido (através da Eucaristia, Ceia do Senhor) e por meio do seu sangue as pessoas por ele marcadas (através do batismo) seriam poupadas da morte eterna (morte física será aqui transferida para a morte eterna no juízo final). Cristo é então o sacrificio perfeito e último, por ter sido feito não por um sumo sacerdote, o que obrigaria sua repetição anual, mas pelo proprio Deus, e portanto sacrificio final e último. Sua morte fora da cidade de Jerusalém, em uma colina, e facilmente explicavel tanto no contexto judaico quanto romano, ambos os povos preferiam que os condenados fossem mortos fora da cidade, para os judeus, a ideia é que a cidade não fosse contaminada (os sacrificios prescritos em Lv eram sempre queimados fora do arraial). Os cristãos interpretaram a morte fora da cidade como o bode expiatório que foi levado para fora e abandonado. Na cruz Cristo repete o Salmo 22.1 “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste”, assim cumprindo a função de bode expiatório, pela expulsão do seio da comunidade e como cordeiro sacrifical, pela morte em si.
    O que não cabe no esquema judaico é a ressurreição, mas daí já é outra história e outros conceitos e analogias que teriam que ser feitas. Só queria mesmo clariar e distinguir estes dois conceitos, de forma que fique claro as diferenças entre eles no Antigo Testamento, sua recepção e interpretação tipologica em Cristo e o posterior desenvolvimento doutrinario na teologia cristã medieval.
    Abraços

  • Olá!

    Parabéns pelo episódio! Quem diria haver tanta coisa para se falar sobre sangue, não? Muito obrigado por indicar o episódio de meu podcast! Senti-me verdadeiramente lisonjeado, já que sou fã do trabalho de vocês.

    Posso aproveitar e fazer apenas uma correçãozinha? Quando vocês falaram sobre o sangue ser um tecido, afirmaram que “apenas as hemácias” constituem tal tecido. Na verdade, hemácias e leucócitos são as células que constituem o tecido sanguíneo, tendo o plasma como substância intercelular.

    Mais uma vez, obrigado! Um grande abraço, e sigam com o excelente trabalho!

  • Vocês estão com uma sequências de ótimos programas! Show!

  • Nilda

    Olá!

    E não é que tem muita coisa sobre o sangue?

    Uma das histórias que mais gosto é a que justifica a existência de rosas vermelhas: Adônis foi vítima da ira de Ares, que enviou um javali para perseguilo. Afrodite, que era o motivo da ira, corre para ajudá-lo e se machuca no espinho de rosas e o seu sangue as tinge de vermelho.
    Não tenho certeza se é por isso que rosas vermelhas simbolizam paixão/amor, mas é grandes chances de que seja.
    Ah, mas o sangue dos deuses era dourado, né? Mitos e lógica não costumam andar juntos.

    abraços

  • Fernanda

    Se alguém souber aonde o Jung faz essa analogia sobre a cor vermelha, necessito saber desesperadamente…

    • Olá Fernanda, recebi tambem seu e-mail. Vou ver também com o Pablo, ele que conhece Jung, deve poder indicar algo.

    • Sim, Fernanda, sobre a cor vermelha, ele comenta sobre isso em um texto (se não me engano “Espírito e Vida”, mas posso ter me confundido – muito provavelmente é outro) no livro “A Natureza da Psique” (esse eu tenho certeza), onde ele comenta sobre o que ele vai descrever como o espectro que vai do instinto ao arquétipo e compara com a luz visível.

      • O instinto, no caso, estaria no espectro infra-vermelho, e o arquétipo, no ultra-violeta – e quando ele fala isso, ele comenta sobre o simbolismo dessas cores e associa o vermelho ao sangue e o violeta à religiosidade. Mas ele fala muito mais do que isso! Vale à pena conferir…

  • Fernanda

    Agradeço muitíssimo Pablo, trabalho com vampiros na faculdade, estudo teoria literária, e esse foco do espectro do sangue vai acrescentar algo muito maravilhoso e diferente no meu trabalho…