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O Livro das Mil e Uma Noites

Houve uma época no imaginário ocidental em que o Oriente Médio era um mundo de luxúria, exotismo, aventuras, riqueza e magia. Um local em que um pobre menino de rua poderia casar-se com uma princesa, onde mulheres promoviam banquetes em que histórias eram contadas, em que haviam competições onde os contadores tentavam maravilhar a audiência com as mais fantástica histórias, que juravam ser verdadeiras.

E ainda hoje em dia as histórias contadas por Sahrazad, de Bagdad, Índia, Samarcanda, China, Damasco e de Harun Arrasid vivem e preservam toda sua magia, tanto nas histórias contadas de pais para filhos, nas aldeias, nos mercados, nas mais diversas mídias de entretenimento e também no mundo do Senhor dos Sonhos.

A tradução de Mamede Mustafá Jarouche

Desta vez não apresento um, mas 4 livros: o Livro das Mil e Uma Noites, coleção de 4 livros traduzidas diretamente do árabe por Mamede Mustafá Jarouche.

Há inúmeras publicações destas histórias e escolhi a tradução do professor Mamede Mustafá Jarouche por ser a mais completa tradução direta do árabe já publicada no Brasil. É uma versão que, além do caráter acadêmico, proporciona uma leitura deliciosa das histórias, remetendo à sua oralidade original.

Jarouche nos traz uma tradução primorosa, fruto de pesquisas junto às diversas fontes desta história, com inúmeras notas explicativas sobre fontes, versões alternativas, comentários sobre possíveis significados que palavras e expressões teriam à época em que foram escritas ou copiadas.

Cada um dos volumes da coleção é acompanhado de uma introdução que explica algo sobre os textos que virão e por um posfácio que comenta a origem dos textos e porque se optou por esta ou aquela escolha.

Ramos Sírio e Egípcio:

Os volumes foram separados em ramos Sírio e Egípcio, sendo este último subdividido em Antigo e Tardio. O tradutor tentou manter esta separação na edição, mas em alguns casos os ambos se mesclam para se manter a coerência narrativa de alguma história.

Os dois primeiros livros contém as histórias o Ramo Sírio, que contém apenas 282 noites.
No primeiro livro a introdução é maior, com uma breve introdução sobre as possíveis origens das histórias de As Mil e um Noites, de como tomaram a configuração atual, algumas polêmicas sobre terem ou não uma origem mais antiga que a árabe. E também há algumas considerações sobre quais são as fontes mais respeitadas e aceitas pelos tradutores e estudiosos deste conjunto de histórias ímpar na cultura mundial.

O segundo livro continua com as narrativas de Sahrazad, e como a última noite termina sem a conclusão da história, Jarouche optou por colocar a versão egípcia da história num apêndice, o que achei uma ótima solução para que o leitor não perca o fio da meada e se desencante.

O terceiro e o quarto livro apresentam o ramo Egípcio da narrativa que, na sua versão mais tardia chega a ter 1001 noites completas, mas de origem questionada e controversa entre os estudiosos e orientalistas.

No terceiro livro a contagem das noites retorna à noite 198, e nele encontram-se as histórias de Simbad.
O quarto livro é bem singular, pois Jarouche incluiu entre as histórias contadas por Sahrazad a de Aladin, ou Ala’uddin, sobre cuja origem oriental pairam dúvidas entre os estudiosos. Além disso, muitas das noites são preenchidas por ditados e conselhos sobre a vida e administração de um reino.

E a história de Ali Babá consta como um apêndice. Porquê isso?
Porque esta narrativa não consta em manuscritos de origem árabe, mas sim em manuscritos em árabe cuja procedência é européia.
Jarouche optou por traduzir esta história e colocá-la em separado, não fazendo parte da narrativa de Sahrazad. Talvez por ser uma história que encanta tanto quando as de origem reconhecidamente árabe, egípcia ou síria.

A narrativa que encanta as noites e evita a morte

O que me mais fascinou nestes livros foi o encadeamento das histórias, que deixa claro como elas foram contadas por Sahrazad à sua irmã e ao Rei, e como foram ser contadas nos lares, tribos e mercados durante séculos.

Toda noite começa com Dinarzad, a irmãzinha, pedindo para que uma história seja contada ou a continuação da que era contada na noite anterior. E toda noite termina com o advento da aurora, quando Sahrazad se cala.

Neste processo alguns temas se repetem e algumas histórias são muito parecidas, havendo apenas troca de nomes dos protagonistas ou de lugares. O tradutor ter optado por apresentar, no final dos livros, estas histórias em duplicidade foi uma boa forma de mostrar as várias versões que existem e coexistem.

É algo que remete à tradição oral que estas histórias tem, além seu caráter novelesco, que sempre deixa algo para o “próximo capítulo” ou, no caso, a próxima noite. E cada noite a mais que uma história leva para ser contada é , no caso da nossa narradora, a garantia de mais um dia e mais uma oportunidade para conquistar o seu rei e sua vida.

Esta coleção faz parte daquelas que todo leitor de boas histórias deve ter. E se for um leitor que gosta de conhecer as histórias populares, mitos e lendas que formam o imaginário da humanidade, é uma obra indispensável.

ANÔNIMO: O Livro das Mil e Umas Noites. (trad. Mamede Mustafá Jarouche). São Paulo, Globo, 2006-2012

PS: A coleção completa é vendida em um box e acaba saindo mais barato que comprar os livros individualmente. Como sou ansiosa comprei os livros conforme foram sendo publicados e e acabei gastando mais. Mas não me arrependo de ter feito isso, pois a tradução direta do árabe e de antigos manuscritos da época de outro do Islã valeu, por si só, cada centavo gasto.
E clicando no banner da Cultura, aí ao lado, é só procurar pelo nome do tradutor e comprar o livro.

  • Gostei bastante das impressões sobre a coleção. Acho que o mesmo ocorre com o livro “Os Contos dos Irmãos Grimm”, que algumas histórias se repetem, mudando uma coisa ou outra.

    No prefácio inclusive há uma nota sobre que muitos contos não ser necessariamente daquele jeito, afinal, muda-se de uma pessoa pra outra, até chega na primeira versão impressa e você nota, obviamente uma visão judaico-cristã colocada pelos irmãos Grimm, que provavelmente não tinha.

    Ótimo review, fiquei curioso. Só não mais curioso pra saber quando sai o próximo podcast! huahuahua =)

    Até!

  • Nilda

    Olá Stuart!

    Em As Mil e Uma Noites há a repetição de temas e algumas histórias são bem parecidas entre si, mas não chega a ser como nos Contos dos Irmãos Grimm.

    Logo depois que este posto foi publicado descobri que o Mamede Mustafá Jarouche foi entrevistado no Anticast 91. Recomendo muitíssimo que escutem, pois lá ele esclarece muitos pontos da obra e sobre a tradução.

    E sobre o próximo Papo Lendário…… aí é com o Leonardo, então vai continuar curioso

    😛