Escritos Lendários – Gilgamesh, o primeiro herói trágico

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A Epopéia de Gilgamesh

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Das histórias do antigo oriente a de Gilgamesh foi uma das últimas a vir a público, e muitos aspectos dela ainda é desconhecido e incerto.

Considerado o primeiro herói trágico, que tem que lidar com a questão da morte e sua inevitabilidade, Gilgamesh tem uma trajetória que é típica dos mitos da antiguidade: um rei, filho de deuses e humanos, insatisfeito com sua vida e que vai atrás de aventuras. Não qualquer aventura, mas o combate de monstros que dificultam, de alguma forma, a vida da cidade em que vive. E também empreende uma aventura ligada a uma busca. No caso, da imortalidade.

Ao procurar um livro que contasse este mito encontrei A Epopéia de Gilgamesh, a versão em prosa de N.K.Sandars para este mito sumério-babilônico.

É um livro pequeno, que cabe no bolso, mas que nem por isso tem um conteúdo raso ou simplificado. Pelo contrário, o livro conta com uma introdução que abrange metade do livro e que é uma leitura indispensável para se entender porque a história de Gilgamesh não é tão conhecida como a dos mitos gregos.

A outra metade é ocupada pela história em si, um excelente trabalho de compilação de traduções realizadas dos escritos cuneiformes e transformada em prosa. A autora explica o porque de ter optado por esta forma de narrativa: para ela a simples transcrição dos versos dificultava o entendimento do mito por parte de quem não é especialista, e por perceber que havia a necessidade de torná-la mais acessível. Também explica que alguns aspectos da narrativa foram deixados de lado ou adaptados para que fosse melhorar a compreensão. E todos os trabalhos utilizados nesta reescrita do mito de Gilgamesh estão devidamente listados e referenciados, o que foi um dos motivos pelos quais escolhi indicar esta versão.

Na narrativa deste livro foram usadas quatro fontes básicas: as tábuas encontradas nas escavações de Nínive, Babilônia, Sultantepe e Boghazköy. Mas outras fontes também foram utilizadas como apoio e complemento.

A história da Epopéia

Na introdução N. K. Sandars nos conta a história da descoberta das primeiras tábuas que contém a história de Gilgamesh. A notícia, em pleno séc. XIX, de que havia uma história suméria do dilúvio anterior à bíblica chamou a atenção para as placas de argilas descobertas, anos antes, nas ruínas de Nínive. E atraiu investimentos para que mais escavações e estudos fossem realizados. Escavações que envolveram conflitos com árabes, persas e turcos, além dos próprios europeus.

Uma história que merece ser estudada e melhor contada, mas que pelo pouco que Sandars parece ter sido emocionante o suficiente para ajudar a criar a aura quase mítica que os arqueólogos adquiriram no imaginário popular.

O Contexto

Ainda na introdução a autora lista as descobertas, origens do mito e estudos realizados. Algumas contradições existentes são creditadas ao tempo transcorrido entre as várias versões e à forma de se contar a história que, ainda assim, manteve sua essência.

Sandars faz uma rápida análise da narrativa e do mito, que nos mostra os rumos que as investigações e estudos tomavam à época em que o livro foi publicado.
Há evidências de que Gilgamesh pode ter sido um personagem histórico real: um rei assírio a quem é creditado a construção das muralhas de Uruk. Ou pelo menos é isso o que consta de algumas listas genealógicas de reis encontradas em várias escavações.

Até que ponto o mito foi influenciado por um personagem histórico, ou se ocorreu o contrário,  é um ponto muito discutido e sobre o qual não se chegou a uma conclusão.

A Epopéia

Gilgamesh, rei de Uruk,  não é amado por seu povo, que reclama de seus abusos e pede aos deuses que deem um jeito neste rei que, por ser filho de uma deusa, tem força considerada sobre-humana e é por todos temido. Enkidu é a resposta dos deuses a estas preces: um homem de origem selvagem e com uma força à altura do semi-deus.
Mas quando Gilgamesh e Enkidu se encontram, e o que acontece? Lutam. Lutam pra valer: quebram portas e outras coisas que estão em seu caminho. E ao final da luta tornam-se amigos. É leitores, este clichê não nasceu nas histórias em quadrinhos do séc. XX

Esta amizade parece levá-los a muitas aventuras, como:
A jornada na floresta de cedros e a luta contra Humbaba, a criatura que a protege
A proposta de Ishtar e a recusa de Gilgamesh
A luta contra o Touro do Céus
A morte de Enkidu
A busca pela vida eterna
O encontro com Utnapishtim
A história do dilúvio
Retorno a Uruk
Morte de Gilgamesh e pranto pelo rei

A narrativa da autora torna a leitura das aventuras bem agradável e nos dá uma boa idéia do impacto que a história teria ao ser narrada na época. Como no trecho em que Gilgamesh atravessa a caverna embaixo da montanha de Mashu,  em que cada légua percorrida é descrita contém a frase “a escuridão era intensa e não havia luz; ele não conseguia enxergar nada”. Esta frase, repetida a cada légua nomeada, dá ao leitor a sensação opressão sentida pelo herói e que parece aumentar a cada légua percorrida, apesar disso não ser dito.

Se este recurso é impressionante ao ser lido, imagino o impacto que não deveria ter ao ser narrado por um contador de histórias habilidoso, ou um bardo competente. Ter tido o cuidado de manter este caráter da narrativa do mito é, ao meu ver, um dos principais motivos da versão de N.K. Sandars ser referência até hoje.

Fonte e referência

Este livro me agradou muito e deixou um gosto de quero mais, uma vontade de ir atrás de mais narrativas de mitos sumérios e babilônicos, e também das histórias das escavações e, porque não chamá-las assim, pilhagens que os europeus realizaram em palácios, templos e bibliotecas da antiguidade.

O único senão que se pode ter em relação a este  livro é o fato da última versão em inglês ter mais de 40 anos. Mas, até onde consegui ir em minhas pesquisas, novas descobertas não mudaram muito o texto apresentado por de N.K. Sandars, que é um dos mais utilizados como referência por quem estuda a mitologia sumério-babilônica e mitologia em geral.

Com certeza é uma das melhores fontes traduzidas e publicadas no Brasil da história do rei que construiu as muralhas de Uruk, contrariou deuses e deusas e ainda assim conseguiu reviver a história suas proezas entre os humanos, mesmo após séculos de esquecimento.

A EPOPÉIA DE GILGAMESH: Tradução realizada a partir da versão inglesa estabelecida por N.K. Sandars por Carlos Daudt de Oliveira, 3ª ed. – São Paulo, Ed. WMF Martins Fontes, 2011

  • Muito boa a recomendação! Não li esse mito mas essa edição parece bem interessante.

    Essa proposta dele ser um dos primeiros heróis trágicos é extremamente interessante!

    Tudo de bom!

    Tiago

    • Nilda Alcarinquë

      Olá Tiago!

      Considerando a antiguidade do mito, Gilgamesh entra facilmente no rol dos primeiros heróis trágicos.
      Sua história abrange vários fatos típicos de um herói, sendo a busca da imortalidade o mais conhecido.
      A abrangência desta influência em mitos posteriores pode ser discutida, mas não pode ser negada.

      E obrigada pelo comentário