Papo Lendário #170 – O Mito da Mente

Leitura de Pergaminhos #46
05/10/2017
Capa 171
Papo Lendário #171 – Spohrverso
31/10/2017
Capa170-Post

Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo e Pablo de Assis convidam André Valente para conversarem sobre o Mito da Mente.

O que é mente?

Qual a relação da mente com a alma?

Veja como religiões recente tratam esse conceito.

Entenda como a mente pode ser um mito.

LINKS

Evento com nosso convidado, dia 25 de Outubro – Café com conversa – Alquimia e Hermetismo Ocidental – Com Andre Valente

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Padrim do Mitografias

  • Nilda Alcarinquë

    Nem baixei ainda e já sei que terei de ouvir umas três vezes, e pausando!

  • Aviso prévio

    Adoro quando o Pablo solta o nerd treker que mora dentro dele. Me sinto representado =D

    • Nilda Alcarinquë

      Fiquei preocupada com com os grupos que ele anda frequentando lá no Facebook.
      Vai que o influenciem a ficar menos nerd?
      Temos que monitorar isso…

      • Aquela postagem que li foi do grupo do MFC, diga-se de passagem… 😉

  • haniellucas

    Qual é o email do André para que eu possa enviar minhas ameaças de mor… cOf CoF! digo, minhas dúvidas?

  • Oi a todos,

    Gostei bastante do episódio e queria contribuir com umas coisinhas:

    1) O termo mente, em diversas línguas, remonta ao termo latino “mens”. Na filosofia medieval, Agostinho usava o termo mente para falar da alma superior racional de Platão, ou seja, da sede do pensamento, memória e vontade, o que Agostinho chamava de trindade da mente. Dessa forma a “mens” era parte da “anima” (alma), sendo a “mens” o que diferia a “anima” humana da “anima” animal.
    Descartes ao buscar refutar a metafísica partindo do princípio de “enquanto penso não posso duvidar que sou uma coisa que está pensando e, portanto, pensa”, ainda utiliza o termo “mens” em alguns textos, mas ao escrever em francês usa o termo alma, usando a expressão “mens sive anima” (mente ou alma), igualando o sentido de alma a mente.
    Como o Pablo abordou, o uso do termo mente começa no século XIX para evitar se usar os termos alma ou espírito. O termo aparece primeiro entre os ingleses (mind) lá no século XVII, se não estou enganado, por preferirem o termo mente para evitar adentrar as discussões teológicos do “soul” e do “spirit”. Aí no século XIX pega de vez, mas primeiro com os próprios ingleses, mas não sei dizer o autor. Parece-me, que em geral os filósofos ingleses nunca abandonaram o termo “mind”.

    2) Um grande tendência na filosofia da mente é considerar que ponto de vista do real, há um monismo e não há diferença entre mente e a experiência da pessoa em seu corpo, mas do ponto de vista da linguagem, utilizaria-se o dualismo somente para facilitar a expressão, pois ao deixar de falar em “minha mente”, falo em “meu corpo” que também gera um dualismo complicado.
    Efetivamente, há um problema em trabalhar com uma substancialização do conceito de mente – por mais que o acho válido quando utilizado dentro de um ponto de vista religioso -, num uso cientificista e pelas possibilidades errôneas de interpretação. Mesmo o termo consciência é passível disto também. É complicado mas a linguagem acaba levando a necessidade de um certo dualismo, mesmo que este se apresente com o “Eu”, como na situação: “Estou doente mas eu estou bem”.
    Sem uma discussão filosófica, é complicado deixar o dualismo da linguagem.

    3) No fundo, as ideias de poderes da mente, mesmo quando tem alguma explicação “científica”, como no seu uso em Jornada das Estrelas, acaba mostrando que ainda somos bem mais metafísicos do que parece, só tornamos sua linguagem científica.
    Pessoalmente gosto muito de Jornada das Estrelas, principalmente da forma como os vulcanos se utilizam da telepatia, tanto pela coisa de encostarem a mão e tal, como no seu uso ser decorrente de uma escolha racional, acho muito interessante isso.

    Tudo de bom a todos!

    Tiago de Lima Castro

    • Valeu, Tiago, pelas considerações! Mas eu tenho ainda várias dúvidas:
      1) será que Agostinho usou mesmo o termo “mente” ou será que essa foi a tradução que chegou até nós? Sei que várias palavras e expressões já remetem a essa questão, mas uma “mente” enquanto substância é algo diferente de compreendermos processos da alma racional, não materiais, como memória… até mesmo porque a raiz indoeuropéia “men-” ou “mn-” faz referência a atividade do espírito, como comentamos no episódio. E Agostinho sendo Agostinho – não só um dos maiores, se não o maior doutor da Igreja de sua época e um herdeiro das tradições platônicas através do maniqueismo – pode ter feito referência a algo relacionado a atividades do espírito humano (e aqui espírito enquanto esse algo ligado ao divino) que foi traduzido como “mente” e não necessariamente ao que nós chamamos de processo mental…
      2) Eu particularmente não vejo problema com o dualismo linguístico – principalmente porque ele reflete a nossa limitação de compreensão do mundo tal qual ele se apresenta. Se pegarmos a natureza paradoxal da luz, ora vista como onda, ora como corpúsculo, vemos que a limitação está não na natureza da luz, mas na nossa compreensão dela, pois a linguagem matemática que associa eletricidade e magnetismo consegue dar conta disso de forma bastante elegante e oferece uma ferramenta de trabalho excelente. Não sei se seria necessário cunharmos novos termos, como a “ondícula” (junção de onda e partícula) ou a total revisão da teoria… apenas reconhecer que nossa linguagem possui limitações. Nessas horas, Wittgenstein faz falta, não acha?
      3) eu já acho a saída científica da mente uma saída muito fácil para lidar com o inexplicável… até mesmo em Jornada nas Estrelas – que eu adoro. Dá pra entender uma série dos anos 60 querer colocar telepatas para justificar sua trama, mas isso abre um precedente que não necessariamente é científico, pois trata a mente como um ente em si, substancializado – o mesmo precedente que justifica toda a conversa sobre a tal “singularidade” que só faz sentido pra quem nunca parou pra pensar sobre o problema da mente e da consciência com seriedade… É engraçado que eu, como psicólogo e entusiasta do scifi não goste de narrativas que usem essa saída, talvez por perceber que isso não ajuda a área e só propaga preconceitos e torna nosso trabalho ainda mais difícil… Star Trek ajudou – e muito – o desenvolvimento técnico e científico do mundo, mas falhou com a psicologia, mesmo tendo uma das protagonistas sendo a psicóloga da nave!

      E depois acho que teremos que bater mais papos sobre essas e outras filosofias!

      Abraços!!

      • Oi Pablo,

        Vou comentar começando pelo final:

        1) Essa parte de narrativas de ficção científica relacionadas a psicologia é algo que ainda faz falta mesmo, pois mesmo havendo filmes muito bons neste aspecto, porém há um lado “divertido” do sci-fi que nem sempre tem sido abordado quando se discute psicologia. Talvez como ficção científica remonta já ao século XIX, deve um tempo de conseguir uma abordagem profunda sobre tecnologia, mas com certa leveza para cativar o público, quem sabe isso não acaba caminhando a ocorrer com a psicologia?

        2) Concordo plenamente com as colocações, e a leitura de Wittgenstein faz falta mesmo. Esse dualismo linguístico precisa ser só mais informado mesmo, nestes casos.

        3) A questão do “mens” e mente é etimológica mesmo, em diversas línguas. Mesmo Agostinho a definindo como a parte superior da “anima”, vindo de Platão, a qual tinha a função de vontade, inteligência e memória.
        Efetivamente, ela tem esse aspecto metafísico, a qual a mens é parte do indivíduo, mas tem tem acesso do divino, contudo o termo teve sua conceituação alterada com o tempo.
        Quando aparece a metafísica cartesiana na modernidade, ele responde uma de suas objeções dizendo que a “mens” é a mesma coisa que “anima”, o que deixou o termo “mens” de lado. Posteriormente, para a pensar a mente do ponto de vista material, como essa experiência de vontade, inteligência e memória, aproveitou-se o termo mente, o qual havia sido deixado de lado, mas retirando-o de sua significação metafísica. Principalmente os ingleses são responsáveis por essa transformação no uso do termo, até porque antes de falar de “mind” substancializada, era mais um verbo derivado de “mens”, no sentido de pensar, refletir; e para variar, quando se substantiva um verbo, tende-se a substanciá-lo também.
        Quando se traduz Agostinho, evita-se utilizar o termo mente para traduzir a “mens” exatamente para não cair nessa problemática. Isso é curioso, o termo etimologicamente mais correto não necessariamente ajuda a entender o que Agostinho queria dizer.
        Talvez o próprio esteio metafísico do termo,mesmo que tendo sido transmutado, ajude a manter o seu mito vivo.

        Obrigado por responder, adoro debater esses temas. Só espero não ter sido muito confuso, algo bem possível.

        Tudo de bom!

        Tiago

  • San Ramon

    Programa muito interessante.