Escritos Lendários: Islã — Religião e Civilização

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Por Muhammad Puncha

Em sua obra, Paulo Hilu sintetiza anos de pesquisas teóricas e de campo sobre o Islã e os muçulmanos.

O livro Islã: religião e civilização: uma abordagem antropológica foi publicado em 2010 e teve sua 2ª reimpressão em 2014. Sua edição pela Editora Santuário remete ao esforço que os brasileiros estão empreendendo para compreenderem o Islã e demais religiões – vide que está na coleção Cultura e Religião da editora –, bem como ao esforço de pesquisadores nacionais nessa seara. Todavia, livros que abordam a religião existirão aos borbotões, mas poucos com as características que Paulo Hilu garante à presente obra. Ao demonstrar um rico itinerário de pesquisa que perpassou muitos países de maioria muçulmana, Paulo Hilu compartilha com o leitor uma experiência avessa ao reducionismo.

A perspectiva do reducionismo que evidenciamos é a de que existiria uma “essência” do Islã e que essa essência é perigosa ou violenta. Um tal pensamento essencialista, que apreende a raiz do Islã, simplesmente ignora toda a miríade de manifestações de religiosidade islâmica ao redor do planeta. Além dos muçulmanos mudarem de país para país, suas identidades étnicas também influenciam, assim como suas classes sociais. Portanto, reduzir o Islã a uma essência é muito mais parte ou do discurso religioso proselitista ou do discurso islamofóbico do que uma apreensão antropológica, científica e empiricamente fundamentada, da prática dos muçulmanos.

O livro é dividido em seis capítulos. Se pelo nome dos capítulos parece ao leitor que ele trará elementos da religião e depois tratará da história do Islã, a leitura irá desfazer tal apreensão. Perpassando todas os capítulos estão informações que somente a pesquisa de campo aliada à historiografia poderia trazer, como as ordens sufis que estão presentes no Brasil, ou os costumes em relação a comemoração do ritual xiita de Ashura em diferentes partes do mundo, ou a permissão que um Sheikh egípcio certa vez concedeu aos muçulmanos de beberem cerveja por ela não ser citada no Alcorão (coincidentemente algumas das cervejarias no Egito são de propriedade do Estado)… Enfim, muitas informações que simplesmente destroem o senso comum acerca da religião. Algumas em tons anedóticos, mas quando encaradas no seu quadro maior de referências demonstra a complexidade que é analisar o Islã, bem como ressalta as relações entre Religião e Cultura.

O primeiro capítulo, Constituição da Tradição: a Revelação e os “5 Pilares”, introduz à vida do Profeta Muhammad, comenta o Alcorão e explana sobre os pilares da religião. Trata-se de uma introdução a um mínimo de conhecimentos sobre a religião de acordo com os religiosos, não de acordo com o discurso de uma autoridade religiosa de outra crença, por exemplo. Tal procedimento é importante, uma vez que o Orientalismo tão em voga na academia e nas mídias sequer ouve o muçulmano. Preferem falar por ele. O capítulo então trará essa voz dos muçulmanos que precisa ser ouvida.

O segundo capítulo, Divisões sectárias: sunismo e xiismo, relatará as primeiras divisões na comunidade, bem como o aprofundamento dessas divisões quando da ocorrência dos martírios dos imames xiitas. O estabelecimento de impérios e domínios sunitas, bem como a emergência de um campo religioso (no sentido evidenciado por Pierre Bourdieu) propriamente islâmico e os agentes sociais internos nesse campo são relatados. As divisões são complementadas então pelo terceiro capítulo A vertente mística: o sufismo, no qual o autor relata algumas das comunidades existentes, sua difusão nos meios populares e o papel que o sufismo teve como uma primeira forma de contato com o Islã para muitos povos. A presença de ordens sufis no Brasil também é relatada.

O quarto capítulo Crise e reforma: o mundo islâmico nos séculos XIX e XX, e o quinto capítulo Militância, globalização e pluralização: o islã nos séculos XX e XXI, trará informações para aqueles que se interessam por questões mais contemporâneas do mundo muçulmano. A formação dos grupos jihadistas e o surgimento dos nacionalismos são abordados, bem como a influência dos meios de comunicação e transporte na difusão do pensamento e de pessoas do/no mundo islâmico – destaque para o papel das linhas férreas no hajj, a migração para a Kaaba. A assimilação da modernidade europeia é ponderada, de maneira que assim como é fundamental compreender a influência do Islã para compreender a Europa, como Peter Burke em seu Renascimento Híbrido (Hybrid Renaissance, 2016, ainda sem tradução) defende, é fundamental compreendermos a influência da modernidade europeia para compreendermos o mundo muçulmano.

O sexto e último capítulo, Novos espaços do islã: comunidades muçulmanas na Europa e no Brasil apresenta uma reflexão exatamente sobre a participação dos muçulmanos no continente europeu e tece considerações relevantíssimas sobre o Islã no Brasil. Abordando desde a presença dos mouriscos (mouros portugueses) e a Revolta dos Malês na primeira metade do XIX até a novela O Clone e as motivações para a adesão ao Islã que os brasileiros apresentam, tal capítulo é um rico sumário dos principais eventos envolvendo a comunidade muçulmana em terras brasileiras.

Apesar de ser uma introdução ao tema (são 231 páginas de livro contando as referências), seu poder de síntese o faz uma excelente obra introdutória aos estudos acadêmicos dos muçulmanos. Sua bibliografia cita desde trabalhos acadêmicos brasileiros e livros raros (como um sobre o druzismo, escrito no Brasil e nunca reeditado) até produções estrangeiras, seja de muçulmanos a pesquisadores como Benedict Anderson, Pierre Bourdieu e Clifford Geertz. De leitura fundamental para um maior poder de análise sobre os muçulmanos do que os reducionismos midiáticos, sensacionalistas e essencialistas propõem.

Islã: religião e civilização: uma abordagem antropológica – Aparecida, SP: Santuário, 2010.
Autor: Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
231 páginas.