Escritos Lendários: Deuses Gregos, de Karl Kerényi

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Titulo Original: Resenha: Deuses Gregos, de Karl Kerényi

Por Daniel Silva

Uma das maiores dificuldades do estudioso da mitologia é entender como ela se encaixa no imaginário particular de cada povo. O costume é produzir julgamentos a partir das crenças da cultura em que o espectador se encaixa. Assim, o ato de mutilação que o Deus Crono causa a seu pai é odioso aos olhos dos leitores da Teogonia, e esse julgamento acompanha a imagem desse Deus. Ora, como entender, porém, que a mitologia estabelecesse uma ligação direta entre esse ser odioso e a época mais bela da história da humanidade? São questões como essa que o autor do livro Deuses Gregos, Karl Kerényi, pretende responder.

Karl Kerényi (1897-1873), nascido em Temesvár, Hungary (atual Timişoara, Romênia), foi um dos maiores estudiosos de mitologia e línguas clássicas do séx XX. Foi amigo de Carl Jung, e um dos entusiastas da relação entre mitologia grega e a psicologia.

O autor entende que, se o desejo do estudioso é alcançar os caracteres fundamentais dos mitos, ele deve se desligar dos seus próprios preconceitos o mais que puder. Isso porque, antes, não haverá senão uma correspondência superficial entre o mundo do estudioso e o dos mitos. Ele passará meramente ao status de uma curiosidade, ou seu conteúdo será interpretado de forma degenerada, face seu significado inicial.

Capa do livro "Os Deuses Gregos"

É por isso que, no longo prefácio, o autor defende essa ideia. E mergulha na apresentação dos mitos gregos como se fosse um velho sacerdote dos mistérios, ou um rapsodo. A cada capítulo as opiniões de determinados autores, como Homero e Hesíodo são expostas e debatidas, face o mito apresentado.

Os deuses são apresentados primeiro contando a origem desse deus, sua filiação mitológica, os mitos de seu nascimento, etc. Em seguida, são apresentadas as conexões dessa divindade com deuses mais antigos, e as principais lendas que a cercam. Não raro a ênfase no aspecto múltiplo das divindades gregas é um dos objetos de análise do autor. Assim, Hécate não é apenas uma feiticeira, mas uma deusa ligada à lua, e a outras deusas da lua. O já citado Crono não é apenas um monstro, mas também o criador da Era de Ouro. Na atualidade, com o império de uma visão maniqueísta, esse aspecto mais incerto dos deuses antigos é muito mais fascinante e difícil de entender – mas revela muito sobre o espírito peculiar dos gregos antigos.

Outro ponto positivo do livro é a riqueza de informações; vários mitos menos conhecidos, como o que trata da origem das Moiras, das Gréias, das Górgonas, das Fúrias, são estudados. Também a genealogia dos seres monstruosos é trazida a lume, e eles perdem o status de meros vilões para o de antagonistas com visões de mundo e papéis particulares – e não necessariamente ligados à maldade. Se Gaia foi a responsável pela ascensão dos Olímpicos, por outro lado ela auxiliou os gigantes em uma das numerosas guerras que conturbavam os primeiros tempos dos deuses – a Gigantomaquia.

O livro também tem suas desvantagens. Primeiramente, não é um livro fácil, sendo o número de informações – especialmente nas páginas inicias – muito grande. Caso o leitor não esteja familiarizado com o assunto, ele pode, facilmente, se perder. Outro ponto que pode desagradar ao estudioso é que o livro obedece ao seu título: trata-se dos deuses gregos, é esse o objeto precípuo de estudo; e se, obviamente, é necessário tratar simultaneamente, da mitologia, ela é apenas uma auxiliar. Não se deve esperar, do livro, um encadeamento em favor dos mitos, mas sim a favor dos deuses, de forma que as histórias iniciais e finais de um deus são apresentadas no item que trata dessa personagem. Ele deve ser lido sem presa, se necessário voltando para outros pontos da obra para tirar dúvidas e consultar mais detalhes. Isso é agradável? Nem sempre, mas permite a quem faz obter uma visão mais geral e exata da obra.

O livro em si não é feio. A capa tem a figura de um vaso antigo, num tom que varia do amarelo ao alaranjado. O problema é a costura e a colagem, que é malfeita e tende a desgrudar – ao menos no caso desse que vos escreve e dos outros livros do autor que estavam na livraria – e exige um cuidado suplementar do leitor.

Afora essas duas desvantagens, e muito por uma delas, continua sendo um trabalho admirável e único no gênero. Ele pode não ser indispensável, mas é rico o suficiente para merecer, ao menos, um breve estudo dos interessados em mitologia grega.