Vertuno e Pomona

Morgana
14/04/2016
Papo Lendário #139 – O Folclore dos Ouvintes
19/04/2016

As hamadríades eram ninfas dos bosques. Pomona era uma delas, e nenhuma a excedia no amor aos jardins e ao cultivo das árvores frutíferas.

Não se preocupava com florestas e rios, mas amava as regiões cultivadas e as árvores de onde pendem as maçãs deliciosas. Trazia como arma, na mão direita, não um dardo, mas um podão. Armada com ele, dedicava seu tempo ora a impedir que as plantas crescessem excessivamente e a cortar os ramos que saíam de seus lugares, ora a abrir uma fenda para nela inserir um enxerto, fazendo o ramo adotar um broto que não era seu. Também velava para que suas plantas prediletas não ficassem secas e conduzia até junto delas os canais, a fim de que as raízes sedentas pudessem beber. Essa ocupação era seu objetivo e sua paixão, e estava livre do que Vênus inspira.

Receava os habitantes da região e mantinha seu pomar fechado, sem permitir que homem algum ali entrasse. Os faunos e sátiros dariam tudo de que dispunham para possuí-la, e assim também o velho Silvano, que parece jovem para sua idade, e Pã, que usa uma guirlanda de folhas de pinheiro em torno da cabeça. Vertuno, porém, a ama mais do que todos os outros, mas não tem mais sorte do que os outros. Quantas vezes, sob o disfarce de um segador, ele não levou a Pomona trigo num cesto, em tudo semelhante, de fato, a um ceifeiro! Com uma faixa de feno amarrada em torno do corpo, parecia, realmente, que acabara de ceifar os campos. Algumas vezes, trazia consigo um aguilhão e ninguém duvidaria de que acabara de desatrelar os fatigados bois.

Ora trazia um podão e personificava um vinhateiro; ora, carregando uma escada, dava a impressão de que ia colher maçãs. Às vezes apresentava-se como um soldado licenciado, às vezes carregava um caniço, como se fosse pescar. Desse modo, conseguia aproximar-se de Pomona freqüentemente e alimentava a paixão com a sua presença.

Certo dia, ele apareceu disfarçado de velha, com os cabelos grisalhos cobertos por uma touca e tendo um bastão na mão. Entrou no pomar e admirou os frutos.

– Mereces louvor, minha filha – disse, e beijou Pomona, não exatamente como beijaria uma velha.

Sentou-se num banco e olhou para os ramos carregados de frutos que pendiam acima dela. Em frente, havia um olmo, por cujo tronco subia uma parreira, carregada de uva. Elogiou a árvore e a vinha a ela associada.

– Mas – acrescentou – se a árvore ficasse só, sem a vinha lhe cingindo o tronco, nada teria para nos atrair ou nos oferecer, a não ser as folhas inúteis. E, igualmente, a vinha, se não se enroscasse em torno do olmo, estaria prostrada no chão. Por que não aproveitas a lição da árvore e da vinha e concordas em unir-te a alguém? Eu desejaria que assim o fizesses. A própria Helena não teve tantos pretendentes, nem Penélope, a esposa do astucioso Ulisses. Apesar de desprezá-los, eles te fazem a corte, divindades rurais e outros de diversas naturezas que andam por estas montanhas. Mas, se és prudente, e desejas fazer uma boa aliança, e deixares que te aconselhe uma velha que te ama mais do que supões, deixa de lado todos os outros e aceita Vertuno. É o meu conselho. Conheço-o tão bem quanto ele se conhece. Não é uma divindade errante, mas pertence a estas montanhas. Nem se assemelha a muitos dos amantes de hoje em dia, que amam todas que têm ocasião de ver. Ele te ama, e somente a ti. Ajunta a isso que ele é jovem e belo e tem a arte de assumir qualquer aspecto que deseje, e pode transformar-se exatamente naquilo que desejes. Além do mais, ele ama as mesmas coisas que amas, deleita-se com a jardinagem e admira tuas maçãs. Agora, porém, ele não se interessa por frutas e flores nem outra coisa qualquer, a não ser por ti. Tem piedade dele e imagina-o falando agora por minha boca. Lembra-te de que os deuses castigam a crueldade e de que Vênus detesta os corações duros e vingar-se-á de tais ofensas, mais cedo ou mais tarde.

– Para provar isto, deixa-me contar-te uma história que é bem sabido em Chipre ser verdadeira. E espero que ela tenha como resultado tornar-te mais benevolente.

Ífis era um jovem de origem humilde, que se apaixonou por Anaxárate, nobre de uma antiga família da Têucria. Lutou muito tempo com sua paixão, mas, quando viu que não podia dominá-la, procurou a casa da mulher amada, como suplicante. Primeiro contou sua paixão à ama de Anaxárete e pediu-lhe que, se amasse a filha de criação, favorecesse sua causa. Depois, tentou arrastar os criados para o seu lado. Às vezes, escrevia súplicas em tabuinhas e, muitas vezes, pendurou, na porta, guirlandas que molhara com suas lágrimas. Estendia-se nos umbrais da morada da jovem e murmurava suas queixas às barras e fechaduras cruéis que dela o separavam. Anaxárete mostrava-se mais surda que os vagalhões que se erguem nas tempestades de novembro, mais dura que o aço que vem das forjas germânicas ou que a pedra que ainda se prende ao seu rochedo nativo. Zombava e ria-se de Ífis, ajuntando palavras cruéis ao seu rude tratamento, e não lhe dava a mais ligeira esperança.

Ífis já não podia suportar os tormentos do amor desesperançado e, de pé diante da porta da amada, disse estas últimas palavras:
– Venceste, Anaxárete, e já não terás de suportar minhas importunações. Goza o teu triunfo! Canta canções de alegria e cinge tua cabeça de louros. Venceste. Vou morrer. Coração de pedra, regozija-te! Isto ao menos posso oferecer-te e obrigar-te a elogiar-me.

E assim provarei que o meu amor por ti só me abandonará juntamente com a vida. Nem deixarei ao cuidado de outros a notícia de minha morte. Irei eu mesmo e me verás morrer e hás de regalar teus olhos com o espetáculo. Contudo, ó deuses que baixais os olhos para os sofrimentos dos mortais, observai meu destino! Só peço uma coisa: que eu seja lembrado nos tempos vindouros e que ajunteis à minha fama os anos que roubaste de minha vida.

Assim ele disse e, voltando o rosto pálido e os olhos lacrimosos para a mansão da amada, amarrou uma corda ao portal onde muitas vezes prendera guirlandas e, metendo a cabeça no laço, murmurou:
– Pelo menos esta guirlanda há de agradar-te, jovem cruel!

E caiu enforcado, suspenso à corda pelo pescoço quebrado. Ao cair, chocou-se contra a porta, e o ruído foi semelhante a um gemido. Os criados abriram a porta, encontraram-no morto, e, com exclamações de piedade, retiraram o corpo e levaram-no para casa, entregando-o à sua mãe, pois seu pai já era morto. Ela recebeu o corpo sem vida do filho, apertou-o de encontro ao peito e disse as palavras dolorosas que as mães costumam dizer no sofrimento. O triste funeral atravessou a cidade e o pálido cadáver foi levado num caixão para o lugar da pira funerária. Por acaso, a casa de Anaxárete ficava na rua onde passava o desfile,e os lamentos das carpideiras chegaram aos ouvidos daquela a quem a divindade vingadora já marcara para o castigo.

– Vamos ver este triste desfile – disse ela, e subiu a uma torre através de cuja janela aberta contemplou o funeral.

Ifis

Mal demoraram no vulto de Ífis estendido no caixão, seus olhos começaram a enrijecer e esfriou o quente sangue de seu corpo. Procurando recuar, a jovem percebeu que não podia mover os pés. Tentou virar o rosto, mas em vão. Pouco a pouco, todos os seus membros tornaram-se de pedra, como o coração.

Não podes duvidar do fato, pois a estátua ainda se encontra no templo de Vênus em Salamina, ostentando a forma exata da dama. E, agora, reflete sobre todas essas coisas, minha querida, e põe de lado o desdém e as protelações e aceita um amante. Assim não possa o granizo hibernal crestar teus jovens frutos, nem os ventos furiosos dispersar tuas flores!”

Tendo assim falado, Vertuno livrou-se do disfarce de velha e se mostrou tal como era, um belo jovem. Pomona teve a impressão de ver o sol irrompendo através de uma nuvem. Ele ia renovar seus apelos, mas não houve necessidade, seus argumentos e seu próprio aspecto triunfaram e a ninfa já não mais resistiu, correspondendo-lhe com o mesmo ardor.