Uma Breve Análise do Papel de Seth no Ciclo Osiriano

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Por Daniel Silva

(OBS: Nesse texto, os termos Baixo Egito e Delta, bem como Alto Egito e Vale devem ser entendidos como a mesma coisa: Duas entidades políticas localizadas, respectivamente, a norte e a sul).

Tendo em vistas novas descobertas a respeito das dinastias faraônicas mais recuadas, é possível traçar um paradigma histórico das origens do Ciclo Osiriano de mitos e lendas.

Em primeiro lugar, deve-se entender que o Egito no período pré-dinástico era, grosso modo, dividido em dois reinos, um ao norte e outro ao sul. O reino do norte, do delta do Nilo foi possivelmente unificado pelo Spat (em grego Nomo, uma espécie de grupo de aldeias unidas sob uma aldeia mãe, com o objetivo de estender as áreas de cultivo) de Buto, e seu deus local, Hórus, foi alçado a condição de deus do reino do Norte e portador da Coroa Vermelha do Baixo Egito. Ao sul, os soberanos de Hierakonpolis (Henen-Nesut, em Egípcio), sob a proteção de Seth. Na realidade, o surgimento desses dois reinos se deu com as constantes guerras entre os Nomos na busca pela sobrevivência da comunidade, seja por meio da conquista de terras mais férteis, seja por meio de saques. O que sabemos é que depois de algumas décadas de guerras esses dois reinos surgiram.

Egito

Segundo a perspectiva histórica, ocorreu que os reis do Alto Egito, melhor organizados e dispondo de possivelmente uma maior população avançou contra o Baixo Egito, impondo severas derrotas (como relatado em estelas e outros objetos [já existia, então, a escrita, mesmo que rudimentar] um dos grandes conquistadores foi o Escorpião Rei), que permitiam ao Alto Egito anexar partes do Baixo, apesar de que a realeza de Buto só foi capturada em épocas posteriores.

O unificador que dobrou o Baixo Egito foi Namer (possivelmente o Menés grego), como mostrado na célebre Paleta de Namer, onde o rei aparece de um lado com a coroa branca do Alto Egito e do outro com a vermelha do Baixo Egito. Segundo o que está relatado no objeto (e como já foi dito, era uma forma mais primitiva da escrita egípcia posterior), Namer teria derrotado o baixo Egito e unificado as duas terras, matando a realeza de Buto.

A grande questão que aparece agora é a seguinte: se foram os descendentes de Seth quem conquistaram o Egito, como é que Hórus se tornou protetor da monarquia e Seth foi relegado a um papel de Deus Maligno?

A realidade é que houve um casamento entre Namer e uma das princesas do Baixo Egito, que visava legitimar a presença dele naquele território. Os conquistadores fizeram de tudo para que os conquistados aceitassem seu domínio, uma vez que um período de guerras era algo indesejado. Além disso, o comércio internacional entre Egito o Oriente Próximo devia passar pelo nordeste do Delta, para só depois prosseguir para o vale. Assim, o baixo Egito era mais desenvolvido em termos econômicos, e possivelmente políticos que o Alto Egito. De fato, um grupo de acadianos emigrou para o Egito trazendo os avanços que a mesopotâmia a essa época já tinha (a região já havia passado por um processo similar ao que os Egípcios estavam passando), e influenciaram muito a política local, trazendo novas características elas se enraizaram mais no Delta, logo a região deveria estar pacificada.

Horus

No principio, logo após a conquista, Seth prosseguiu como deus dinástico, que submeteu Hórus no norte. Mas com o tempo diversas revoltas eclodiram no Delta, que se recusava a aceitar seu deus como inferior ao do conquistador, o que implicava a superioridade do Alto Egito. Devemos entender nesse quesito outras causas deveras importantes: a existência das já citadas influências políticas dos acadianos, que em certo momento emigraram para o Egito (trazendo muitos avanços da Mesopotâmia, como a ideia da escrita, de diques mais resistentes, etc) foi mais forte no delta, o que sem dúvida se refletiu nas revoltas. A maioria delas foi sufocada, mas a perda em vidas humanas era péssima para a agricultura, e por fim um Faraó foi, ao que parece, assassinado (nessa época a ideia dele como ente divino ainda não havia se consolidado no imaginário popular nem na Teologia. Ele estava mais para o líder guerreiro do que para um deus, como um rei-herói, mas não como divino). Na segunda dinastia foram propostas algumas soluções, pela adoção da igualdade entre as divindades Hórus e Seth, bem como pela construção de uma capital na intercessão entre Alto e o Baixo Egito: Mennofer (Mênsfis). Mas a solução foi apenas uma paliativo, e as conspirações voltaram a imperar, de tal forma que a segunda dinastia foi bastante conturbada, até que por fim os Faraós decidiram por mudar o deus dinástico de Seth para Hórus e assim manter em paz o Egito, tendo em vista a organização do reino (e a anexação de algumas regiões próximas).

Seth

Mas porque houve essa concessão ás populações revoltadas? Porque os descendentes dos conquistadores não reuniram seus exércitos para aniquilar a revolta? Em primeiro lugar deve-se compreender que a importância do Delta era muito grande, como já foi supramencionado, para o comércio, sem citar a dificuldade que o Egito passava em termos de agricultura com a mobilização de um exército. Outro ponto era o de que, pelo sistema Egípcio da realeza, a guardiã da mesma era a esposa do Faraó. Ou seja, o filho dela com ele é que seria o novo rei do Alto e Baixo Egito* após a morte do atual soberano. Assim, com o costume dos reis das primeiras dinastias de se casar com princesas do norte, os reis eram em parte descendentes da realeza do Delta, o que culminava numa hesitação da parte deles em tomar medidas de caráter extremamente repressor. Outro ponto é o que os Faraós, com a fundação de Mennofer como capital, deixaram de encarnar o belicoso líder do alto Egito. O Faraó embora fosse proveniente do alto Egito gastava muito do seu tempo pacificando o baixo Egito. A mudança de capital afastou a figura do Faraó de seus súditos do alto Egito (que não obstante lhe eram fiéis). Assim, Seth passou a ser menos cultuado pelas populações dos Spats mais distantes da capital, que tinham seus Deuses locais e não precisavam venerar (muito) o deus Dinástico. No delta, ao contrário, Hórus era uma forma de resistir ao conquistador. Além do mais, pelos contatos com regiões foras do Egito e mais avançadas em termos de civilização, fez do Delta uma região mais adiantada que o vale, e conseqüentemente mais importante para ser mantida. Esses foram, dentre outros, os motivo pelo qual a troca do deus dinástico era bem mais desejável.

O resultado desse longo processo na mitologia foi o desenvolvimento, principalmente na terceira dinastia, de uma nova Cosmogonia, com o surgimento de novos Deuses de grande popularidade (Como Osíris e Isis, como Rá, etc) que passaram a ser venerados em toda a nação (o sul agora mais desenvolvido com conquistas na Núbia e as descobertas de minas de ouro e prata, sem falar nos outros produtos daquela região, gerando um equilíbrio entre Delta e Vale). Assim temos a criação o surgimento, a partir das tradições orais e da necessidade de legitimar Hórus dos primeiros esboços daquilo que viria a ser o ciclo Osiriano. Houve, claro, outras influências, como a predileção que os reis da quarta dinastia tinham pela divindade Rá e o fortalecimento do clero do Deus sol. (que proporcionou mais Teogonias e Cosmogonias, além de uma posterior união das mitologias com a Enéade de Iunu, que reunia todas as divindades mais populares).

O Seth dessa época foi esquecido pela larga maioria da população. Os mais antigos poderes dessa divindade deram lugar a um Deus cruel, maligno e fratricida, ou seja, passou a ser visto pelos egípcios como um demônio. Só não foi totalmente esquecido por que, passando a dominar o deserto e a tempestade, ganhou o status de Deus que permite que os corpos se conservem no deserto, uma espécie de guardião da eternidade. Também a velha fórmula de que o faraó era a união de Hórus e Seth em um único ser continuou a ser empregada. Ele era contraparte de Hórus, o caos que define a ordem.

Horus e Seth

Não sabemos se alguma confraria de sacerdotes venerava a Seth. Sabemos, no entanto que ele jamais foi ignorado pelo corpo sacerdotal, permanecendo de forma velada, mas real na religião Egípcia. Muito mais tarde, no segundo período intermediário, ele foi venerado como Deus principal dos invasores Hiksôs, em Avaris, e o que é mais surpreendente, foi patrono de vários reis da décima nona dinastia e de alguns da vigésima. Seth jamais deixou de ser, então, uma divindade poderosa para os iniciados, que até com o poder do Cosmos o relacionavam. Foi o povo quem esqueceu o que ele era realmente.

Os grandes cultos públicos aos deuses não eram destinados a Seth. Quando foi venerado, e se foi, tal veneração era secreta, e possivelmente feita pelo Faraó em pessoa. Esse processo não se deu em poucos anos, mas levou grande parte da segunda e da terceira Dinastias. Porém pode ser utilmente resumido como acima foi feito.

Alguns egiptólogos consideram o abandono de Seth como divindade dinástica um processo tão importante, que desencadeou um divisor de águas que separaria o protodinástico do Antigo Império. Claro, é preciso que se entenda que não só isso, como também a evolução da escrita, da arte a mumificação, a tendência cada vez maior a deificar o Faraó constituem outras grandes diferenças entre o Antigo Império e o Protodinástico. Mas foi a paz vinda da mudança na religião, que apaziguou as revoltas (e, porque não dizer, o aumento da importância e do desenvolvimento do Alto Egito) que permitiu que se entrasse num novo período histórico.

Faraó

*Em termos históricos, se considera que a sucessão do Faraó era transmitida pelas mulheres, ocorrendo da seguinte forma: Ele podia se casar com várias esposas, que se dividiam em diversos níveis: Grande Esposa do Rei (a esposa principal), Esposas Secundárias (casamentos políticos, diplomáticos, etc) e as concubinas (toda a mulher que o Faraó desejasse para lhe dar prazer, fossem criadas, estrangeiras, etc). Os filhos dessas últimas costumavam dar origem a oficiais, escribas, Sacerdotes, esposas de grandes Dignitários, etc. Os filhos das esposas secundárias (que deveriam ser em número limitado, pois, mantê-las era bem mais oneroso do que as concubinas) estavam destinados a serem grandes personagens na política do Egito, como Generais, Vice-reis, Sumos Sacerdotes, etc.

A grande esposa real era apenas uma, e a que gozava das maiores honrarias do reino, sendo identificada com deusas importantes, como Ísis e Mut. Era ela quem transferia a seus filhos e filhas a legitimidade. Se ela tivesse filhos, um deles seria o próximo Faraó. Se fossem apenas filhas, o que se casasse com a mais velha era o próximo Faraó. Exatamente por isto é que muitas vezes os irmãos se casavam com as irmãs, para evitar que algum oportunista pudesse vir a ameaçar ocupar o trono. Geralmente nesses casos o Faraó escolhia dentre os filhos das esposas secundárias um que fosse capaz e o casava com a primogênita. Existem muitos exemplo de sucessão desse tipo, como a de Huni (Sneferu era casado com a filha de Huni, Heteferes) ou a de Akhenaton (Tutankhamon era casado com a filha mais velha ainda viva de Akhenaton, Ankhsenpaaton [mais tarde Ankhsenamon]). Mas mesmo assim houveram oportunistas (como Aye, após a morte de Tutankhamon).