Britannia: Um resgate das mitologias Céltica à Nórdica

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Titulo original do post:TCC de Gustavo Lauriano de Freitas Rocha – Britannia: Um resgate das mitologias Céltica à Nórdica

Gustavo Lauriano de Freitas Rocha;
[email protected]

[b]RESUMO[/b]

Resgatar as mitologias consiste na prática em buscar a identidade folclórica e a essência literária permanente nas crenças populares e nos mitos que transcenderam ao passado e chegaram tão vivos aos nossos dias, quanto foram no tempo primordial mítico. Evidencia-se assim um caráter de fascínio dessas mitologias, que foram e que são perpétuas, antes pela transmissão oral de sua narrativa e hoje, em sua persistência, por tamanha eloquência e encanto, sendo este nosso maior legado ancestral. A necessidade em estudar os celtas e os nórdicos quanto às suas mitologias representa um caráter de total importância para compreensão da Literatura Inglesa e o que essas mitologias representam para a mesma. Então, busca-se por uma consciência folclórica que simbolize uma trajetória histórica e que identifique o povo Bretão, assim como sua cultura, seus valores e tradições.

Palavras-chave: Mitologias ; Essência ; Identidade ; Cultura ; Tradição

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Birigui, Graduado em Letras: Licenciatura Plena em Português e Inglês, sob orientação da Prof. Ms Edileide A. Brito

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[b]ABSTRACT[/b]

Rescue the mythologies consist in the practice to search for a folkloric identity and the literary essence permanent in the popular beliefs and in the myths that have been transcendenting to the past and has arrived alive still in our days, such as, they were in the primordial mythical time. Evidence like that a fascinating character from these mythologies, whichever they were, and keep ever perpetual before that orally transmission in the speeches until actuality, and in its persistence for a large eloquence and enchants, being like this, grant our ancestral bequeath. The necessity to study the Celts and Nordics about their mythologies represent a character into the total importance to understand the English Literature and what that all mythologies represent for one. Then, search for a folkloric conscience that symbolizes a historical trajectory and which identify the Britain people, aslike their culture, their values and traditions.

Key-words: Mithologies ; Essence ; Identity ; Culture; Tradition

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[b]Introdução[/b]

A voz harmoniosa da Criação … um eco do mundo invisível.

Quando se estuda uma nova língua e se passa além das fronteiras que permeiam a cultura, os costumes e a própria língua materna daquele que a estuda, depara-se com um novo mundo que se apresenta, prenhe de novos conceitos permanentes pela nova cultura. O estudo do léxico e o treino da pronúncia do novo idioma representam uma dificuldade inicial a ser superada. Mas, atenta-se para um ponto de grande relevância que deve ser tomado como referência para o estudo dessa nova língua: a cultura.

Dentro da cultura pode-se destacar alguns elementos que são de extrema importância para o respectivo estudo. Dentre eles, o folclore com suas lendas, contos e mitos antigos, comemorações, costumes e outros. Em contato com esses elementos, pode-se desvendar a essência dessa língua expressa em sua cultura, do que somente se enfatiza o idioma em si.

Há mais de 2.500 anos atrás, aproximadamente, a Bretanha foi palco de um processo lingüístico e cultural que se iniciou, dando origem hoje ao que diz respeito às tradições culturais e folclóricas e à própria Língua Inglesa. Entre 1000 e 500 a.C., os Celtas chegaram e se misturaram com os nativos e, mais à frente no tempo, com outros povos de fundamental importância. Cada povo contribuiu para formar a Grã-Bretanha de hoje com seu folclore, tradições e mitos, vindos desses povos que, por lá passaram deixando essa contribuição ancestral. Especificamente, os Celtas, Teutônicos ou Germânicos e Escandinavos trouxeram suas mitologias para a Bretanha e, lá as difundiram, sem perderem totalmente o aspecto particular de cada povo.

A intensidade dessas mitologias era tão grande que remete pensar no conceito de religião e nos mitos e deuses que esses povos possuíam, provindos de seu politeísmo; possuíam uma relação direta com seus mitos e deuses que estavam presentes em seus festivais, em suas cerimônias ritualísticas, na caça, na agricultura, na natureza e na vida em particular. Os deuses e seus mitos percorreram o tempo e se apresentam nos costumes e crenças presentes no folclore e a busca para entender a cultura Inglesa remete-se ao estudo desses mitos, deuses, contos populares, seres mitológicos e da relação com os elementos naturais na qual expressa intensa religiosidade e manifestações das divindades veneradas.

Propõe-se discutir sobre certos elementos presentes na cultura Inglesa, como contos populares, mitos e deuses antigos, vindos desses povos de outrora e personagens lendários, constituindo um panorama essencial para o estudo dessa cultura, remetendo-se a uma transcendência desses elementos míticos através dos tempos e de uma atemporalidade que circunda estas lendas, mitos, contos e personagens deificadas.

Portanto, para enaltecer a fortuna crítica desse respectivo trabalho, propõe-se basear em autores como Roland Barthes (1957), Charles Squire (1909), Mircea Eliade (2006) e outros que potencializam este estudo, discutindo a importância dos mitos, da mitologia e das personagens lendárias, deuses, como também, os contos populares. Busca-se discutir a importância do retorno aos primórdios, a essas histórias e personagens fantásticas para se compreender a riqueza literária e cultural, presente na cultura britânica.

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[b]Os Povos e a Britannia[/b]

I am wandering worlds,
And I am seeking the Vision of the Artist, the Wisdom of the Poet and the Music of the Bard along the way.
anonymous

A necessidade de retroceder no tempo em um dado período da história é extremamente relevante para se traçar uma reta histórica e imaginária, na qual se apresentam momentos de grande importância para a Bretanha ou Britannia, nos quais, destacam-se a abordagem dos vários povos àquele território. Se, movidos na ânsia pela busca ou pela descoberta de novos lugares, por uma característica nômade ou por um expansionismo particular, esses povos estenderam-se àquela região, a qual, torna-se palco de vários eventos históricos inegavelmente decisivos para a sua formação como país e a formação de seu povo.

Serão citados os povos que representam serem essenciais para elucidar esse processo histórico e sócio-cultural, desencadeado pelos mesmos na Bretanha e, será breve o relato de qualquer outro, objetivando compreender inicialmente esse processo e a importância que representa.

Tal processo inicia-se a partir da Idade do Bronze e, percebendo a chegada de povos na Britannia entre 1000 e 500 a.C. (Squire, p. 04, 1909), aproximadamente, quando chegaram, inicialmente, os Goidélicos ou Gaélicos, um grupo celta falante de uma variante dialetal provinda de um ramo linguístico do Proto Indo-Europeu, reconhecendo então, aquele novo território e ocupando-o. Pode-se deduzir, pelas relíquias encontradas ao longo das extensas fronteiras que, os Goidélicos encontraram ao chegar; uma raça de estatura baixa, de pele escura, crânios alongados e de um baixo estágio de civilização (Squire, p. 03, 1909), a qual possuía uma origem incerta. Identifica-se esse povo como aborígine, não sabendo ao certo, quando de sua chegada às Ilhas Britânicas.

Já os Britônicos (Bretões ou Britões), que também são celtas, mas falantes de outra variante ([i]britonzaeg[/i]), chegaram em torno do século III a.C. à mesma Britannia (Squire, p. 04, 1909), repetindo o que já havia feito os Gaélicos há tempos atrás, estabelecendo-se e ocupando seu espaço territorial. Ambos, Britônicos e Goidélicos (ou mesmo, Bretões e Gaélicos) possuíam uma diferença na aparência física, como também, na linguagem falada. Apesar dos dois grupos possuírem olhos azuis ou acinzentados, escritores clássicos como Tácitus se referiu aos “caledonianos”, pictos ou escotos, povos do norte da Escócia, como sendo diferentes dos Bretões meridionais, por terem membros mais compridos e cabelo ruivo e, Strabo que descreveu as tribos no interior da Britannia, como sendo de estatura mais alta do que os colonos Gauleses no litoral (provenientes da Gália, provável Bélgica ou da Bretanha Gaulesa, também chamada “Armórica”, a França de hoje), com cabelos menos amarelos e membros mais curtos (Squire, p. 29, 2005). Em sua chegada, os Goidélicos (ou Gauleses) já se haviam miscigenado com um grupo tribal liderante da Europa Central e, ao longo do curso do tempo, modificaram-se novamente pela mistura de seu povo com aquela civilização primeva encontrada na ilha. (Squire, p. 04, 1909)
Os romanos tiveram sua chegada na Britannia entre 55 e 54 a.C. para uma conquista simbólica em dois desembarques (Sena, p. 15). Segundo Charles Squire (2006), os Romanos teriam aparecido naquela terra para reconhecer mais de um tipo de habitante, distinguindo em regiões costeiras próximas à França, nativos que pareciam aos Gauleses, tipo celta habitante da Gália e da Bretanha Gaulesa ou Armórica e, nativos do norte de troncos largos e cabelos avermelhados, que pareciam a eles, semelhantes aos Germânicos. A esses povos, deve-se acrescentar um grupo do oeste da Britannia, de quem a tez escura e o cabelo cacheado causaram espanto ao serem considerados como imigrantes da Hispânia ou Península Ibérica (a atual Espanha), pertencendo, provavelmente, a outro grande grupo de povos aborígines (Squire, p. 05, 1909).

Pode-se afirmar que, no momento da dominação romana, os Britânicos estavam em posse de toda Britannia e o sul de Tweed, enquanto os Goidélicos tinham a maior parte da Irlanda, Ilha de Mann, Cumberland, norte e sul de Wales, Cornwall, Devon e o oeste montanhoso da Escócia e, portanto, percebe-se sua permanência naquele território (Squire, p. 05, 1909).

A ocupação romana da Bretanha somente se inicia em 43 d.C. No mesmo período da conquista simbólica romana da Britannia, os Pictos (homens pintados) que eram um outro grupo de origem celta, já ocupavam as montanhas da Escócia e os Escotos, também celtas, ocupavam partes dessa, os quais, tribalmente, ocupavam também, a Irlanda. Certamente os três séculos de ocupação romana da Britannia não inclui a Irlanda e a Escócia, sendo que, entende-se que pela distância das fontes romanas de abastecimento e recrutamento, a Irlanda tornou-se inacessível. Uma possível tentativa dessa dominação romana sucumbiu aos ataques dos Pictos e dos Escotos vindos do norte e do oeste à Britannia, que as legiões romanas abandonavam, mas também pela invasão dos Anglos e dos Saxões, chamados pelos bretões (britônicos ou britões) romanizados para conterem aqueles.

Como se refere Jorge Sena, pagãos de um paganismo germânico eram esses povos conhecidos como Anglos e Saxões que, junto aos Jutos, invadem a Britannia romanizada no século V d.C. sendo, os Saxões originários do Baixo Elba (rio correspondente à região da atual Alemanha) e os outros da península da Juteland (Dinamarca, parte da antiga Escandinávia) e sul dessa.

A desocupação territorial romana se dá há cerca de quatrocentos anos depois de Cristo por conta do ataque desses outros povos de origem Teutônica ou Germânica e Escandinava. Ocorre então, nesse mesmo período, uma migração para a Bretanha Gaulesa (Armórica), ganhando o nome de celtismo, sendo simbolizado pelo lendário Rei Arthur, personagem marcante para o povo britânico pela sua lendária e mítica trajetória somada à história da Britannia, à sua cultura e mitologias.

Por volta do século IX e século X, ocorreram terríveis invasões e devastações Vikings na Bretanha e na Irlanda, como no norte da Europa. Pode-se falar que, para a Grã-Bretanha houve uma época pré-viking e outra pós-viking, devido a qual, foi marcada pela violência expressa nessas devastações e invasões ocorridas. Observa-se também, no século XII, aproximadamente, o expansionismo normando, que empreende a conquista da Irlanda, já muito alterada pelas invasões escandinavas na ilha. (Sena, pp. 15-23)

Embora existiram outros povos que passaram pelo território da Britannia, não é necessário estender-se, relatando outros eventos históricos que aludem a detalhes históricos de menor importância, pois, esse breve panorama elucida a importância que esse processo histórico e sócio-cultural representa, comportando em si, uma soma de povos, sua influência e, mais a frente como será tratado, sua mitologia.

Esse emaranhado de intervenções históricas que a Britannia teve, tornou-a um território de grandes trocas sócio-culturais e palco de batalhas decisivas entre povos que exigiam sua posse. Os povos aborígines que a habitavam no início desse processo, também participaram desses combates, como também, miscigenaram-se com os povos celtas e os demais. Consideram-se os Anglos, os Jutos e os Saxões como povos Germânicos e os Vikings, como povos escandinavos, vivendo como piratas. E quanto aos Normandos (Northman) são homens do norte, de origem escandinava, como seu nome alude.

Todos esses povos e essa trajetória histórica representam o início desse estudo, somado ao legado deixado por eles no decorrer do tempo. Constituem-se dessa forma, relevantes manifestações sociais e culturais, que exemplificam a proposta desse trabalho na constante busca das origens, na quais se instalam e desenvolvem o caráter lendário e mítico da Cultura Inglesa.

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[b]Os Celtas e sua história[/b]

Ouça a voz do Bardo! Que Presente, Passado e Futuro vê, de quem os ouvidos têm ouvido a Palavra Sagrada, que caminhou por entre as antigas árvores.
William Blake

A fascinante trajetória dos povos celtas em suas migrações pelo território europeu, expressa o espírito errante contido em sua constante movimentação ao longo do continente e além dele. Seu interesse e afã pelas viagens eram movidos pela ideia que sair do centro, articulava uma visão de vida de que essas viagens ou o seu relato eram de aspecto tão religioso quanto às próprias cerimônias. Houve emigrações celtas para territórios do sul da Alemanha, Boêmia (região da atual república Tcheca) e Polônia, através da Gália e para a Espanha, tendo chegado aproximadamente antes de 450 a.C.

Enquanto, nesse mesmo período, outro grupo viajou pelos Alpes, ocupou o vale do Po e continuou para o sul até Roma e Sicília. Aproximadamente 279 a.C., outras tribos celtas moveram-se dali para o leste através da Macedônia e invadiram a Grécia. Estima-se que em torno de vinte mil celtas se introduziram na Ásia Menor (Turquia) e se instalaram naquela região, desde então conhecida como Galácia. Sem dúvida, a mais importante migração para o norte do continente europeu foi a dos Goidélicos ou Gaélicos, provenientes da antiga Gália (atual Bélgica), os quais se estabeleceram no sul da Britannia e também na Irlanda. (Sharkey, p.18, 1996)

Tem-se acreditado que as relíquias celtas mais primitivas da Europa Central datem de cerca de 800 a 450 a.C. e pertençam à cultura Hallstatt, devido aos objetos de metal encontrados em um cemitério do centro mineiro de sal e de cobre de Hallstatt, na Áustria. A fase celta seguinte chama-se La Tène e permaneceu na Europa Continental até a época dos romanos.

O estilo ornamental da arte La Tène, manteve-se na característica das obras em metal, talha de madeira e ilustração de manuscritos, estendendo-se para a Grã-Bretanha e para a Irlanda. A arte celta era rica por possuir um estilo impetuoso e imaginativo. Era precisa, consciente em motivos florais e símbolos abstratos, além de padrões geométricos. (Sharkey, p. 05, 1996)

O nome celta vem do grego ‘keltoi’ e mais à frente os romanos passaram a utilizar o termo ‘galli’ para designar os povos que viviam na Gália, ao norte dos Alpes. O termo ‘celta’ deve denominar uma cultura, uma vez que esse povo provém de um grupo racial e dialetal chamado de Proto Indo-Europeu, a mesma família linguística ancestral do latim e do grego. Os celtas não eram povos bárbaros, como afirmavam os romanos. Era um povo de grande talento inventivo, manipulavam o ferro em sua arte, inventaram a cota de malha e o sabão, foram os primeiros a ferrar cavalos, produziram aros de ferro sem emendas para rodas de carroças e para as bigas de guerra, sendo também, um dos primeiros povos a utilizar a relha de arado e o moinho movido a braço. Os celtas eram agricultores e cultivavam várias espécies de trigo, aveia e cevada, sendo as safras mais importantes a de cevada e trigo. Quanto à pecuária, os celtas criavam o gado que era usado para puxar arado e para o suprimento de carne e leite. Criavam ovelhas, cabras, porcos e também cavalos. (Caselli, pp. 04-06, 1984)

Os celtas mantiveram uma tradição muito forte referente à relação entre mestre e discípulo que pode ser percebida na transmissão e ensinamento dos mitos sempre através da oralidade, visto que não possuíam escrita para registrá-los. Portanto, a transmissão oral era a maneira de reviver as histórias míticas e perpetuá-las, transmitindo-as em um contínuo processo de renovação de sua religiosidade e mitologia. Vê-se a confirmação desse relevante processo no respectivo fragmento: “A escrita era considerada desnecessária, pois as leis, lendas e ensinamentos tribais se perpetuavam graças a poetas e sacerdotes; eram eles que se encarregavam de memorizá-las e de transmiti-las oralmente”. (Sharkey, p. 05, 1996)

Para os celtas, ser guerreiro era o ideal que o proporcionava valor e orgulho e a morte era o momento supremo, como se apresenta na citação:

Ser guerreiro entre guerreiros era o ideal para os celtas, mas morrer na batalha rodeado de amigos, poetas e uma centena de inimigos era a consumação suprema (…), quando morria um líder ou um rei, a tribo se reunia para um ritual de cremação, no qual, eram rememoradas as heróicas façanhas desse líder e o funeral ocorria como uma celebração com entusiasmo. (Sharkey, pp. 10-16, 1996)

Segundo John Sharkey (1996) na obra Mistérios Celtas:

Os sofisticados e civilizados escritores clássicos conheciam a ‘religião natural’ dos bárbaros, mas sua imaginação parece tê-los abandonado ao pretenderem entender o significado dos grandes bosques da Europa (…) Julgaram mal o grande amor pela natureza que influenciava todos os aspectos da vida celta. Alguns dos belos poemas primordiais refletem a relação entre o homem e os elementos físicos que o rodeiam. (Sharkey, p. 14, 1996)

Vê-se então, uma maior conservação dessa poesia, assim como os rituais, lendas, leis e folclore, em especial na Irlanda, exemplificado com tríades contínuas, datando do século IX d.C.:

[i]Tenho notícias para ti: o cervo brame,
O inverno neva, o verão passou.
O vento é forte e frio, o sol está baixo,
Seu curso é curto, o mar está alto.
Os fetos são de um vermelho profundo; perderam sua silhueta.
O ganso selvagem eleva seu habitual grasnido.
O frio prendeu as asas dos pássaros; tempo de Gelo;
estas são minhas notícias. (In. Sharkey, p.14, 1996)[/i]

Os celtas possuíam em bosques lugares antigos de adoração, nos quais realizavam celebrações religiosas, festivas e jogos. Também faziam reuniões tribais decisórias. Em seus templos sagrados mantinham o tesouro da tribo que segundo a crença, era protegido pelo deus local. Continham uma grande quantidade de objetos de ouro e de prata. Eram então, a razão dos saques romanos a seus templos. (Sharkey, p.14, 1996)

A religiosidade celta era intensa e sempre presente na realização de seus rituais, na crença e vivência de sua mitologia, no exercício da transmissão oral de seus mitos e lendas e na celebração de seus festivais periódicos, tudo exaltava as divindades e o compromisso, a aproximação e o respeito para com a natureza, que era a representação viva de seus deuses míticos, onde eles se materializavam. Os celtas consideravam haver uma influência entre o sol e a lua, e eles, sendo estes ligados diretamente aos deuses e eram elementos fundamentais em seu misticismo, assim, como o fogo, o vento, a água e a terra. Dá-se início no calendário ritualístico irlandês com o grande festival chamado de [i]Samhain[/i], celebrado a 1º de Novembro, com uma celebração pastoril realizada depois das colheitas. Nesse festival, eram feitas oferendas aos antepassados para compartilhar a boa sorte. Na Irlanda, ainda hoje, esse costume é permanente, assim como por toda a Britannia. É feita a limpeza das casas e são deixados alimentos para os antepassados na véspera do dia de “Todos os Santos”. Nota-se que nessa mesma véspera é comemorado o [i]Halloween[/i] que, como uma comemoração típica da cultura Inglesa, foi transformado em uma festa cultural simbólica, adaptada a partir de uma lenda celta. Em 1º de Agosto, tem-se o festival de verão mais importante chamado de Lugnassad ou “Comemoração de Lugh”. Percebe-se que esse nome tem ligação direta com o nome de Lugh, um importante deus celta Galês. [i]Lugudunum[/i] “cidade de Lugh”, da qual derivou-se o nome da capital inglesa Londres, era celebrado na Gália e Lammas na Irlanda.

O ritual de [i]Beltaine[/i] (pronuncia-se /Baltina/) era celebrado a 1º de Maio com a grande celebração da primavera e verão da fertilidade, simbolizados pelas fogueiras de Maio. Era uma festa do fogo percebida em ritos como o de [i]Maypole[/i], no qual realizavam danças em torno de fogueiras nas festividades ao longo do mês, celebrando o ressurgimento da força e vinda da primavera. O festival [i]Imbolc[/i] era relacionado estritamente com o fogo sagrado que purifica a terra e proporcionava a fertilidade e o despertar do sol de seu sono hibernal. (Sharkey, p. 18, 1996)

Os celtas ainda possuíam um tipo de medicina homeopática que também trazia aspectos de seu misticismo característico. Possuíam conhecimentos para dosar a quantidade exata de raízes, folhas e flores deveria ser misturada para que os ingredientes produzissem o resultado desejado era parte integrante desse conhecimento natural que enfatizava a importante e essencial utilização de ervas para a cultura celta, uma vez que estavam associadas a um poder místico particular. A natureza em si transmitia uma magia natural que era pressentida na relação celta com os elementos naturais e envolvida diretamente às divindades. [i]Ogham[/i] era uma ciência que revelava as qualidades, os diferentes aspectos e a utilização das árvores. Acabou se tornando um idioma secreto que repetia esse conhecimento em forma de dizeres ou como canções de ninar. Havia sempre algo a aprender. Existiam oito árvores nobres, oito árvores plebéias e oito arbustos para se conhecer. As árvores nobres eram: abeto, bétula, salgueiro, carvalho, plátano, avelaneira, macieira e freixo. (Sharkey, p. 15, 1996)

Como se percebe, a proximidade dos celtas com a natureza era visivelmente forte. No trecho que se segue, vê-se a síntese que expressa a idéia da relação celta com seu mundo particular envolto em uma sacralidade provinda dos elementos naturais que compõem sua religiosidade intrínseca:

O homem primitivo, portanto, vive em um mundo radicalmente distinto do nosso, do universo moderno prenhe de conceitos, de técnica e domínio da natureza. Para o homem religioso, a natureza é viva, ela pode falar-lhe sempre. Não se trata de dizer que tais povos cultuavam as árvores, o sol, a lua; mas sim, que eles eram interpelados pelos símbolos que esses elementos manifestavam. Não são ‘objetos’ ou ‘coisas’, mas símbolos vivos que se apoderam desses homens, fato que nos leva a constatar, mesmo que de maneira imperfeita, aquilo que esses ‘objetos’ significam para o primitivo, ou seja, hierofanias. (Fabri, p.33, 1988)

Os elementos da natureza se tornam símbolos que representam a manifestação das divindades no mundo. Esses símbolos são, por sua vez, arquétipos divinos materializados, ou o que o texto de Marcelo Fabri (1988) descreve como hierofanias, sendo representações do divino ou do sagrado no mundo.

A mitologia celta estabelece uma ligação do divino com a natureza, reforçando a religiosidade através da vivência dos rituais, da celebração, da influência e interferência divina em sua vida e da transmissão das lendas, mitos e cultura para as outras gerações.

Vale lembrar que na Inglaterra da Idade Média, época em que o Cristianismo havia tomado o lugar da religião celta antiga por imposição romana, a religiosidade celta por mais fraca e apagada que estivesse não havia se extinguido. Ela ainda restava em certos costumes como na prática da utilização de ervas e junto a pessoas naturalistas. Nesse mesmo período, ocorre uma perseguição da Igreja Católica contra tudo o que representasse heresia, indo contra seus princípios. Para as mulheres que ainda tentavam resgatar as suas origens celtas em certas práticas e outras mulheres por motivos grotescos, criou-se o estereótipo ‘bruxa’, tachando-as de hereges, impedindo a liberdade de escolha quanto à crença particular de cada indivíduo, proibindo veementemente as outras religiões que não fossem consideradas cristãs, punindo essas mulheres e inclusive homens com torturas absurdas até a queimação em uma fogueira em praça pública.

Esse processo religioso e histórico chamou-se de “A Santa Inquisição”, adotado também pelos protestantes da época que associavam o canto, a dança, o sexo e toda forma de alegria e prazer ao demônio. A Santa Inquisição teve duração por seis séculos, estimando um número em torno de cem milhões de mortes. Deixou marcas inestimáveis na história e imprimiu uma imagem deturpada e preconceituosa nas religiões pagãs e politeístas, como na religião celta e no misticismo em geral.

À medida que, mais se conhece sobre os celtas, mais a sua história nos instiga a discutir sua maneira de vida como povo aventureiro, religioso e miscigenado, a trilhar, junto a eles, o mesmo caminho pelo qual percorreram e vivenciar suas mesmas experiências, sendo um povo de grande misticismo e que deveras nunca se esquecer sua cultura, homenageando seus antepassados, mantendo viva as tradições de seus rituais e celebrações, revivendo e rememorando suas lendas e mitos, transcorrendo-os no tempo e reverenciando seus deuses. Por mais que fossem perseguidos, roubados ou marginalizados e que houvesse povos que se impunham contra sua cultura, considerando-se superiores, como era o caso dos romanos, os celtas mantiveram sua imagem de povo guerreiro, os quais realmente foram.

Resta muito a ser relatado referente à sua mitologia. Percebe-se a grande importância para a cultura celta quanto à sua religiosidade, resgatando nos mitos uma verdade mítica e única do mundo e da realidade como construtora desse universo. A verdade que é percebida nos mitos ultrapassa as expectativas quanto a um povo que se expandiu, miscigenou-se e se difundiu, tornando-os essenciais, restando o que é de extrema relevância para esse estudo: o caráter de transcendência da cultura e mitologia.

A realidade celta se definia a partir de suas experiências religiosas que eram fundamentais para caracterizar sua estrutura social e o modo como pensavam. Como ressalta Mircea Eliade (1994):

É através da experiência do sagrado, do encontro com uma realidade transumana que nasce a idéia de que alguma coisa existe realmente, de que existem valores absolutos, capazes de guiar o homem e de conferir uma significação à existência humana. (Eliade, p. 123, 1994)

A história celta se completa no relato de sua Mitologia, a qual será apresentada e destacada pela crença em deuses, no poder inegável da natureza e seus elementos e, na verdade de seus mitos e vivência de seus rituais.

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[b]Os Celtas e sua mitologia[/b]

O mito é considerado uma história sagrada e, portanto, uma “história verdadeira”.
Mircea Eliade

Os celtas tinham uma verdadeira adoração pela natureza, pois ela nada mais era para eles, do que a representação física das divindades em que acreditavam. Viver em harmonia com a natureza e respeitar o seu ciclo da vida era interagir diretamente com esses deuses nela manifestados, tornando sagrado cada elemento natural e celebrando essa intensa relação nos rituais realizados e nos mitos periodicamente rememorados. Havia uma extrema comunhão entre os celtas e o meio natural, uma vez que os deuses se faziam presente em tudo ao redor. Era de consciência coletiva de que as deidades influíam no constante processo de renovação da vida, nos processos de vida e morte e, em tudo que representasse o equilíbrio universal entre o céu e a terra. Os deuses celtas cuidavam para que os elementos naturais desenvolvessem cada qual o seu papel em uma relação harmoniosa, tornando a terra mais fecunda, as colheitas mais generosas e a vida silvestre mais vibrante. Tem-se um exemplo abaixo quanto à importância do elemento água para a religiosidade celta:

A água era considerada princípio e fonte de toda a vida para aqueles que habitam a terra e dependem de sua generosidade para conseguir alimentos e sustento (…) O rio ou o arroio são expressões vivas da Terra Mãe, o que os santifica; e o que os dota de poderes curativos é uma combinação de diferentes minerais, vegetais e propriedades etéreas que emanam de alguns mananciais a certas horas do dia ou em dados momentos da fase lunar. (Sharkey, p. 07, 1996)

A partir deste relato, percebe-se que a religiosidade culmina em uma extrema sacralidade do mundo, já que esse mundo é tomado por atmosfera sagrada. Há rios, no continente europeu, que simbolizam essa crença celta quanto à valorização dos elementos naturais e sua ligação com as deidades. Tem-se como exemplo, o rio Marne, que deve seu nome às Matronas, as três mães divinas e, o rio Sena, que leva esse nome por conta de Sequana, a deusa de seu manancial. Pode-se afirmar que o nome do Reno é celta, como também, o nome de seus afluentes do leste: Necjar, Main, Lahn, Ruhr e Lippe. O rio Severn, na Grã-Bretanha, vem de Sabrina e o rio Clyde, da deusa Clota (Sharkey, p. 07, 1996). Logo, nota-se que todos os lugares sagrados tinham seu espírito guardião, que era encarregado de cuidar desses locais e que vigiava e participava das realizações dos rituais, podendo se transformar em gato, pássaro ou peixe, segundo as preferências da deusa. Acredita-se que esse espírito podia, até mesmo, assumir a forma de uma horrenda “bruxa”, dependendo das intenções, circunstâncias ou atitudes dos visitantes ou intrusos no local (Sharkey, p. 07, 1996). Os celtas não possuíam panteões (monumentos) para adorarem seus deuses e, sabe-se que adoravam os elementos, como já fora dito e, o Grande Espírito.

Ainda relatando sobre seres espirituais, pode-se ressaltar que, os celtas consideravam o ambiente no qual habitavam, dotado de uma aura de poder sobrenatural, como havendo um mundo paralelo em um outro plano, ao qual davam o nome de [i]Sidh[/i]. Era um lugar sagrado, habitado por seres também conhecidos como [i]Sidh[/i], os quais eram dificilmente visíveis aos olhos humanos, devido às impurezas do mundo. Dizia-se que os [i]Sidh[/i] podiam ser de dois tipos: aqueles seres que eram altos e brilhantes e, aqueles seres baços (sem brilho), iluminados a partir do interior (Sharkey, p. 07, 1996). Essa crença teve maior ênfase na Irlanda, sendo uma crença provável, proveniente dos Goidélicos. Na fala de John Sharkey, tem-se que: “Com o advento do cristianismo, estes seres se degradaram em todos os sentidos, tornando-se fadas, duendes e representações malignas do folclore, que viviam num estado intermédio”. (Sharkey, p. 07, 1996)

Os templos sagrados que os celtas possuíam, além e serem utilizados como centros de reuniões para decisões, eram também, centros místicos, nos quais os acontecimentos míticos já ocorridos se tornavam nos ritos e mitos, temas atuais ao longo do tempo, através da história e da poesia contidas nos mesmos (Sharkey, p. 06, 1996).

As histórias intercalavam temas ligados aos deuses, apresentando seus mitos, envolvendo aspectos sobrenaturais em um tom de verdade absoluta. Os mitos eram histórias verdadeiras para os celtas, o que se vê no trecho de Mircea Eliade: “(…) o mito é considerado uma história sagrada e, portanto, uma “história verdadeira”, porque sempre se refere a realidades” (Eliade, p. 12, 1994) e ainda, para Augusto Novaski, “Para a razão, o mito (…) não é ficção, engano e falsidade; é, isto sim, um modo de falar, ver e sentir dimensões da realidade, inatingíveis racionalmente, dando-lhes significação e consistência”. (Morais [i]apud[/i] Novaski, p. 25, 1988)

Os celtas adoravam os bosques de carvalho, pois esses e certos monolitos de pedra se relacionavam como a uma crença animista, através da qual, os reconheciam como reencarnações dos espíritos de seus antepassados mortos, em uma ligação direta com a natureza. (Sharkey, p. 12, 1996)

A teoria animista afirma que a crença em um outro “eu” com propriedades espirituais, sendo que, firma a idéia de que além dos homens, os vegetais e as coisas inanimadas também possuíam uma alma (Lacatos, p. 182, 1999). O carvalho era considerado sagrado para os celtas e era o rei das árvores. Está ligado diretamente às práticas rituais, junto ao visco que se desenvolvia em seu tronco (Squire, p. 37, 2005). A figura da árvore tem um grande valor para a cultura celta por ser um elemento natural que simboliza a vida que brota diretamente da terra mãe. Logo, tem-se a seguinte afirmação:

O mundo não é mais uma massa opaca de objetos arbitrariamente reunidos, mas um Cosmo vivente, articulado e significativo (…) o mundo se revela enquanto linguagem. Ele fala ao homem através de seu próprio modo de ser, de suas estruturas e de seus ritmos. (Eliade, p. 125, 1994)

Esse mundo é dotado de elementos simbólicos que interagem entre si, em uma relação harmoniosa definida pelos deuses, transmitindo certa sacralidade e verdade, através de seus ritos, mitos e interação com a natureza. Compreende-se então, a relação mútua entre homem e seu meio, tendo por intermédio, a crença que estabelece os conceitos para cada atitude humana em seus costumes referentes a sua mitologia e seus ritos. Mircea Eliade (1994) apresenta um trecho ressaltando a idéia de relação mútua entre o homem e seu meio:

Se o mundo é transparente para o homem arcaico, este sente que também é ‘olhado’ e compreendido pelo Mundo. O animal da caça olha-o e o compreende (o animal, muitas vezes, deixa-se capturar porque sabe que o homem está faminto), mas também, o rochedo ou a árvore ou o rio. Cada qual tem sua “história” a lhe contar, um conselho a lhe dar. (Eliade, p. 127, 1994)

Os celtas possuíam uma hierarquia entre seus líderes que definia suas funções. Quando César descreve o “clero” da Gália, ele o divide em três grupos: os bardos, os vates e os druídas. Cada qual deveria atuar naquilo que lhe era particular: os bardos relatavam em verso as grandes façanhas dos deuses; os vates praticavam a adivinhação e estudavam filosofia natural; os druídas, por sua vez, ocupavam-se da adoração divina, da correta celebração dos sacrifícios, da interpretação de questões rituais (Sharkey, p. 16, 1996) e da realização dos ritos. “Todos os druidas eram bardos, mas nem todos os bardos podiam aspirar a ser druidas”. Pode-se afirmar que os druidas ocupavam funções de destaque na comunidade celta. O druida era um xamã, um sacerdote, um poeta, um filósofo, um médico, um juiz e um profeta (Sharkey, p. 16, 1996), além de ser, segundo Charles Squire (2005), um mágico, um teólogo, um adivinho e um historiador (Squire, p. 39, 2005).

O processo que levava um celta a se tornar um druída era longo e trabalhoso, incluindo várias etapas:

Os estudos de um bardo irlandês, o [i]fili[/i], constavam de verso, composição e recitação de histórias, gramática, [i]Ogham[/i], filosofia e leis. Os sete primeiros anos seguintes eram dedicados a estudos mais especializados e incluíam a linguagem secreta dos poetas e, o [i]fili[/i] se transformava em [i]ollamh[/i]. Podia então, receber instrução em genealogia, direção de acontecimentos e aplicação de leis em forma poética. Assim, chegava a ser doutor em leis. Por fim, o “homem instruído” estava preparado para estudar encantamentos, adivinhação e magia. (Sharkey, p. 16, 1996)

O druidismo era uma prática que fazia parte integrante na cultura celta e era essencial para os mesmos, como os ritos e as comemorações. A transmissão oral do conhecimento era uma característica de relevância para essa cultura, percebendo-se que não havia escrita. Os bardos tornaram esse método de transmissão de conhecimento, um método ameno que propagava tanto seus mitos e lendas, quanto acontecimentos importantes, referentes à vida da comunidade. As adivinhações feitas através de tríades, veiculando três informações ao mesmo tempo, facilitavam a transmissão de conhecimento para as crianças; eram também, uma forma de memorizar aquilo que fora aprendido.

Os druidas, os vates e os bardos transmitiam o conhecimento, perpetuando a cultura celta e transcendendo sua mitologia através de suas tradições. Os druidas, “os protetores da clarividência”, juntamente com os outros membros de sua casta, relatavam com freqüência em seus contos, a transformação em natureza animal, como a de touro, cervo, cavalo, javali, gato, pássaro ou peixe. Havia um certo interesse nas tentativas de explorar poderes ocultos e ampliar o alcance da mente, mediante a rituais. Essas tentativas eram feitas por aqueles que possuíam dons especiais. “Eles entravam em um estado de transe coletivo, no qual as realidades presente e passada, física e psíquica, se confundiam para formar uma ponte entre os aspectos divino e animal do homem (Sharkey, pp. 12-16, 1996). Pode-se concluir que, esses indivíduos, em todas as comunidades nômades, das quais se tem conhecimento, são os xamãs.

Quando se evidencia em certos povos ancestrais, práticas como essa citada, há uma dificuldade por muitos, em aceitar suas realizações e entender que são provindas da tradição cultural daquele povo. Lidar com uma metafisicidade contida em práticas comuns, em certas culturas causa espanto e estranhamento para com o desconhecido, ocasionando até, certos pré-conceitos, erroneamente concebidos pela falta de conhecimento ou pela falta de um posicionamento neutro quanto a essas práticas, já enfatizando que são representações culturais. Entretanto, foi discutido um exemplo semelhante no capítulo anterior, que apresenta uma idéia equivocada quanto às práticas, um estilo de vida livre ou a opção de outra crença, havendo uma discriminação acentuada pela criação do jargão taxativo e estereotipado “bruxa”, salientando um nítido preconceito, chegando a atitudes desumanas referentes aos politeístas e pagãos.

Sabe-se que existiu para os celtas um deus com chifres (ou cornos) denominado Cernunnos e considerado, segundo antropólogos, o “Senhor dos Animais”. Era o deus da caça e a presa estava sob o seu controle. Cernunnos apareceu no folclore britânico (ou bretão) como “Herne, o Caçador”. Percebe-se, então, que a representação animalesca do deus que possui chifres remete a uma idéia de que “caçador e caçado são um só” e, portanto, exemplifica desta forma, a relação harmonia e dependência entre o homem e a natureza. A animalidade presente na aparência do deus, justifica-se pela ambigüidade do mesmo (como caça e caçador) e, também, por ser a representação do meio silvestre e selvagem (o meio natural), atestando assim, a extrema importância e respeito dos celtas para com a natureza, que era tão fecunda e tão produtiva, portanto, tão sagrada. As pinturas rupestres nas paredes das cavernas comprovam a ambiguidade da inter-relação de homem e animal, reproduzindo um homem trajado com pele de animal selvagem. (Sharkey, p. 12, 1996)

O radical “DR” no nome druida significa uma árvore que é, sem dúvida, o carvalho (Squire, p. 37, 2005). O druida, portanto, era aquele que possuía a sabedoria do carvalho e estava envolvido em um universo religioso (místico pela crença celta) e mítico, por envolver um ambiente de sacralidade e hierofanias, por conta das deidades que se faziam presentes:

(…) para o universo mítico, não há o que poderíamos chamar de uma dicotomia radical entre “real” e “vivido” (…) O vivido é o real, tal como esses homens o experienciavam. (Morais [i]apud[/i] Fabri, p. 32, 1988)

Na Mitologia Celta, cada deidade possuía suas características próprias e seus atributos, como também existia um mundo espiritual mítico (um mundo atemporal) uma guerra que agrupava, de um lado, os deuses do dia, da luz, da vida, da fertilidade, da sabedoria e do bem; do outro lado, agrupavam-se os demônios da noite, da escuridão, da morte, da aridez e do mal. O primeiro grupo de divindades formavam uma família divina em torno de uma deusa chamada Dana, por isso, o nome desse grupo ser “Tuatha Dé Danann”; ou seja, “Tribo ou Povo da Deusa Dana”. O outro grupo era conhecido como “deuses de Domnu”, fiéis da Deusa Domnu, conhecida também, por “Fomorianos”. Esse mito é de procedência gaélica (ou godélica). (Squire, p. 51, 2005)

Uma das deidades mais importantes na mitologia celta é o Deus Lugh, o deus do Sol. Ele está relacionado aos nomes de alguns festivais como Lugnasadh e Lugdunum. Lugh possuía uma lança mágica que disparava fogo e rugia. Na batalha de Moytura, libertou os Tuatha Dé Danann e seu líder, o rei Nuada, os quais estavam à mercê dos Fomorianos. Lugh também resgata de uma batalham o grande e heróico guerreiro Cuchulainn ferido. Ele limpa suas feridas, entoa a canção dos homens para que Cuchulainn adormeça e desafia a todos os inimigos. Dagda era o “bom deus”. Possuía um caldeiral chamado “O Insecável”, o caldeirão da abundância que saciava a todos e possuía uma harpa viva que enquanto tocava, as estações do ano seguiam sua ordem (Squire, p. 55, 2005). Era conhecido como o “Senhor da Sabedoria Perfeita” (Sharkey, pp. 08-10, 1996). O deus Ogmios armava-se com um porrete e possuía uma pele de leão. Era considerado o exponente da fala persuasiva. Ogmios era enrugado e caldo; por sua vasta experiência fez suas palavras serem de grande valor, para serem ouvidas. (Squire, p. 12, 1009)
Os celtas possuíam o deus Llyr (correspondente bretão) (ou Lear/Liar – correspondente gaélico), o deus do mar, que era mais conhecido por seus filhos do que por suas façanhas (Squire, p. 16, 2005) como por exemplo, seu filho, o deus Manannán, que era o padroeiro dos marinheiros. Seus refúgios preferidos eram a ilha de Arran, no estrito de Clyde e a ilha de Man, à qual deu seu nome (Squire, p. 60, 2005). A própria deusa Dana representava a terra e a sua fertilidade. O deus Nuada era o deus da guerra, rei dos Tuatha Dé Danann (Squire, p.53, 2005), Brigit, a deusa do fogo, da terra e da poesia, foi adotada pelos primeiros cristianizadores que a canonizaram como “Santa Brígida ou Bride” (Squire, p. 57, 2005); Morrigan era a grande rainha, a deusa suprema da guerra, podendo ter simbolizado a lua e os rituais mágicos referentes a ela. “É representada plenamente armada e carregando duas lanças na mão” (Squire, p. 54, 2005). Angus era o deus eternamente jovem do amor e da beleza, um Eros gaélico. Possuía uma harpa de ouro que, ao ser tocada, produzia uma música tão doce que, quem a escutasse a seguia (Squire, p. 57, 2005).

O deus Camulus era dono de uma espada invencível, que era um dos tesouros dos Tuatha Dé Danann (Squire, p. 54, 2005). Diancecht era o deus da medicina; previu o perigo que representava um filho que a deusa Morrigan havia tido, pois era de um aspecto terrível. Diancecht então, destruiu aquela criatura ao abrir seu peito, encontrou dentro, três serpentes, que em seu tamanho adulto, poderiam despovoar a Irlanda. Diancecht as queimou até as cinzas, evitando que seus corpos, mesmo mortos, pudessem fazer mal. Jogou as cinzas no rio, pensando que pudessem ser perigosas e, dessa forma, impediu o desastre. Elas eram tão venenosas que o rio ferveu e retorceu cada criatura viva nele, portanto, recebeu o nome de “Barrow”, ou seja, fervente. (Squire, p. 60, 2005)

Esse mito conta o porquê do nome do rio, envolvendo uma relação divina aos acontecimentos, sendo eles míticos. Balor era um deus fomoriano (um demônio) que possuía dois olhos, sendo que, um deles era extremamente venenoso, quando fixado em alguém. “A lembrança de Balor e seu olho ainda perdura na Irlanda” (Squire, p. 52, 2005). A expressão “o olho de Balor” é um substituto para “mau olhado” na cultura irlandesa.
Ao se referir à mitologia dos bretões ou britônicos, encontra-se duas famílias dos deuses que são “os filhos de Dôn” e “os filhos de Llyr. Havia uma constante guerra entre os deuses da luz, da vida e dos das trevas, da morte, igualmente aos deuses gaélicos. Pode-se afirmar que, o Lear, deus do mar gaélico é o mesmo Llyr Bretão. Nudd ou Lludd também era um grande deus bretão, mas seu filho Gwyn possuía mais destaque. Era um deus caçador; caçava humanos e se disfarçava como um deus da guerra (Squire, p. 207, 2005). Era também, o deus da morte e do submundo. Gwyn mantém uma luta com Gwyrthur que se estenderá até o fim dos tempos. Gwyrthur é uma divindade solar e, junto a Gwyn, representam a competição entre o paradoxo luz e trevas e, as diferenças entre inverno e verão. Gwydion, um dos filhos de Dôn tornou-se o druida dos deuses”. Era o mestre da ilusão e da fantasia e professor de tudo o que é útil e bom; o amigo e ajudante da humanidade e combatente eterno contra os deuses do submundo que se recusavam a liberar as dádivas boas que estavam presas em sua guarda. (Squire, p. 212, 2005)

Amaethon, o deus da agricultura e Govannan, o deus ferreiro eram irmãos de Gwydion. Este possuía uma irmã chamada Arianrod, que também, além de irmã, era sua mulher. Dylan era um dos filhos de Gwydion. Era chamado de Dylan, “filho da onda”, pois foi ligado às trevas do mar pelos celtas. Nadava tão bem quanto os melhores peixes. Embaixo dele, nenhuma onda estourava. Acabou sendo morto por uma lança de seu tio Govannan. Segundo o mito, as ondas da Britannia, da Irlanda e da Escócia e, a Ilha de Man, choraram por ele. Gwydion e Arianrod ainda tiveram um filho que se tornou o deus bretão do sol, Lugh, no qual teve um crescimento rápido, como todas as divindades solares. Branwen e Brân eram ambos, filhos de Llyr. Branwen era a deusa do amor, a filha do mar e, Brân é um deus de tamanho gigantesco. (Squire, p. 213, 2005)

Enfim, havia muitos outros deuses de importâncias tão grande como esses citados. Alguns deuses ainda não citados, eram divindades trazidas pelos romanos que, embora não-célticos, acabaram por ser associados aos deuses celtas, pela aparência de suas características e, gradualmente, foram inseridos na crença celta. Embora deuses não-célticos, não foi difícil para o povo celta aceitá-los, pois seu politeísmo permitiu essa aquisição. Segundo relatos do próprio imperador Julius Caesar, os celtas veneravam deuses como Mercúrio, Apolo, Minerva, Júpiter e Marte (Squire, p. 09, 2005), mas há controvérsias quanto a essa afirmação. Percebe-se isso, através dos relatos abaixo, que provam a associação do deus romano Mercúrio ao deus gaulês Lug (ou Lugh), evidenciando uma intenção romana pré-estabelecida:

Sabemos que os gauleses não adoravam deuses como Mercúrio, Apolo ou Minerva. (…) Uma das questões que se coloca é identificar o nome do deus celta que foi identificado a Mercúrio. A quase totalidade dos historiadores concorda em que se trata de Lug ou Lugus. Este deus tem uma posição destacada na mitologia irlandesa, sendo o mais importante dos deuses. (Olivieri, p. 103, 2004)

E ainda:

A propagada imperial buscou sobrepor o culto de Mercúrio ao de Lug, ligando-o ao culto imperial. Para tanto, acreditamos que os druidas romanizados tenham sido escolhidos para o ministério desse culto. Dessa forma, o deus celta Lug que teria preponderância sobre os sacerdotes, a guerra, as colheitas e uma íntima relação com os druidas, deveria ser reverenciado sob a forma de Mercúrio, mas também, direcionado para o culto imperial, confundindo-se com o próprio imperador. (Olivieri, p. 107, 2004)

Esses relatos se referem, exclusivamente, ao período histórico em que a dominação romana é absolutamente visível. Nada é ao acaso e inicia-se, portanto, nesse momento, uma repressão aos druidas, que são forçados a optar pelos cultos romanos, já que estavam condenados, se mantivessem a tradição e, desenganados pela implacável imposição romana.

Não se deve deixar de mencionar um personagem simbólico que representa a cultura celta e sua mitologia com grande expressão, por se tratar de um homem lendário e mítico ao mesmo tempo: o rei Arthur. Lendário porque sua história, ao longo do tempo, ganhou marcas de realidade tão grandes, por estar diretamente associada à cultura celta, que se confunde com a própria história celta, uma vez que digam que, supostamente, pôde ter existido um chefe tribal com esse mesmo nome e, mítico, porque existe o mito de um rei Arthur que lutou, junto a seus cavaleiros, em um ambiente propriamente mítico. Cavaleiros esses, sendo os próprios deuses e, Arthur, um extraordinário rei dos deuses “ao qual as famílias divinas de Dôn, de Llyr e de Pwyll rendiam homenagem inquestionada” (Squire, p. 250, 2005). O caráter ambíguo como herói lendário e mítico é apresentado no trecho: “É muito possível que Arthur fosse um líder militar do século VI. Não obstante, sua importância deve-se à sua imagem de herói mítico, como guerreiro do Sol” (Squire, p. 10, 2005). O Arthur mítico era uma divindade solar como o deus Gwyrthur e o deus Lugh; portanto, tem-se a sua inegável importância em uma imagem de destaque, que a mitologia celta apresenta.

Outra figura mítica e lendária de grande imponência é Merlin, um druida com plenos poderes místicos, descrito com mestre de todo conhecimento, possuidor da riqueza e senhor do reino das fadas ou, propriamente, um mago, como sua imagem representa (Squire, p. 30, 1909). Merlin possui o nome de Myrddin, sua imagem como deus mítico, do mesmo período de Arthur. Acredita-se que Myrddin, “o deus supremo da luz e do céu” foi venerado no templo Stonehenges, na Britannia (Squire, p. 260, 2005). Merlin é um grande representante do misticismo celta, tanto quanto de sua mitologia, carregando características de personagem mítico, como de um sacerdote druida. Era tão importante, que se misturava ao mito de Arthur, como um mago protetor e conselheiro ou, como um grande deus sábio. Junto ao mito de Merlin e ao de Arthur, deve-se relatar outro símbolo mítico de grande importância, que surge de maneira enigmática na história e se mistura à lenda Arthuriana, causando fascínio aos europeus do século XII: o Santo Graal. Segundo seu mito, um cavaleiro mítico, súdito do rei Arthur, vê um recipiente que lhe chama a atenção, ser carregado por uma menina no salão de um castelo. O que impressionava era que o objeto era belíssimo: reluzente, de ouro puro e incrustado por pedras preciosas. Desde então, esse cavaleiro decide desvendar seu mistério ([i]Super Interessante[/i], p. 36, 2005). A crença nesse objeto durante a Idade Média foi tão intensa, que a história se tornou lenda, ocasionando numa obsessão por muitos, em encontrar tal objeto. Surgiram várias versões da lenda e o objeto sagrado foi retratado de diferentes maneiras: como uma pedra, possuindo grandes poderes místicos desconhecidos; como uma substância mística que os alquimistas medievais consideravam capaz de prolongar a vida e transformar qualquer metal em ouro, denominada [i]lápis elixir[/i] ou “pedra filosofal” e ainda, como sendo um prato ou vaso, com o qual Jesus partiu o pão da última ceia e, no qual, o discípulo José de Arimatéia recolheu o sangue de Jesus na cruz. ([i]Super Interessante[/i], p.40-41, 2005)
Nota-se que o mito do Santo Graal atravessa a Idade Média e se transforma em uma lenda que apresenta, não só características celtas, como também, características visíveis do Cristianismo intenso da época. Vale ressaltar que, com o advento do Cristianismo, os mitos começaram a perder força pela imposição implacável da Igreja Cristã. A perseguição à crença politeísta e a caça às “bruxas” na Idade Média comprometeu a crença celta em seus mitos e deuses, impedindo-a duramente de co-existir com a crença cristã. Mas o misticismo celta não foi consumido, ele foi disfarçado, modificando-se, dando a entender que a crença antiga estava sendo deixada para trás e, assim, perpetuou-se até os dias de hoje, como objeto dessa discussão:

Ainda assim, o tempo todo, as idéias e ideais ingleses vinham sendo secretamente abandonados, porque se disfarçavam sob formas que podiam ser prontamente apreciadas. A fantasia popular tinha reabilitado os velhos deuses, havia muitos banidos pelo sino, pelo livro e pela vela dos padres, sob vários disfarces. Eles ainda viviam na lenda como reis da antiga Britannia, reinando em um passado fabuloso, anterior a Júlio César – tais como o rei Lud, fundador de Londres; o rei Lear, cuja lenda foi imortalizada por Shakespeare; o rei Brennius, que conquistou a Roma; bem como muitos outros que serão encontrados, assumindo papéis no velho drama. Eles ainda viviam como santos há muito tempo, mortos, desde as primeiras igrejas da Irlanda e da Britannia, cujos maravilhosos atributos e aventuras são, em muitos casos, apenas aqueles dos homônimos originais, os velhos deuses, contados de novo. (Squire, p. 17, 2005)

Não se deve deixar de citar o deus Brân, que sobreviveu como “Rei Brandegore” (Squire, p. 221, 2005), comprovando em último relato que, a mitologia celta não desapareceu, mas ela se mascarou, como último recurso para a sua proteção e sobrevivência. A realização dos ritos e “contação” dos mitos eram para os celtas, essenciais para manter a sua cultura sempre viva, através de sua tradição. O que os bardos e os vates realizavam era nada mais do que perpetuar, oralmente, as histórias míticas e seus deuses, que eram verdadeiros e vivos. Vê-se, então, a importância do mito e do ritual, nos trechos abaixo:

Por ocasião da reatualização dos mitos, a comunidade inteira é renovada; ela reencontra as suas ‘fontes’, revive as suas ‘origens. (Eliade, p. 37,1994)
Todos os ritos celebrados nessas sociedades são a própria condição de perpetuação do mito, pois que, através dele, o mito ganha vida e, o homem, objetivando emoções profundas, vive em presença dos deuses, em perfeita comunhão com o divino. (Fabri, p. 32, 1988)

A Mitologia Celta é fascinante, pois expressa sua intensa religiosidade e seu misticismo presente nos ritos e mitos, nas celebrações periódicas, nos deuses de outrora, tão vivos como sempre, em sua ligação com os elementos naturais e, na perpetuação de usa cultura, tão bem conduzida pelos vates e bardos, como também, pelos druidas. A Grã-Bretanha não seria a mesma se tivesse se apagado os vestígios de seu passado. Vestígios esses, de um povo que conseguiu transcender seus deuses e mitos, lendas e rituais, festivais e modo de vida, contribuindo para a formação de um povo altamente miscigenado, o qual é o povo britânico; povo esse, que permanece sob uma terra de incríveis antepassados, que guardam uma mitologia e religiosidade espantosa, indo além daquilo que pode ser compreendido, revivendo um tempo mitológico e encontrando as origens, embora envoltas por névoa. O enigma celta referente à verdade mítica é claramente interpretado, quando vemos o mito da maneira que ele realmente é: “O mito é portador de um sentido exclusivamente mítico do mundo (…) Só se compreende o mito pelo próprio mito”. (Morais apud Moura, p. 50, 1988)

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[b]Os Nórdicos e sua mitologia[/b]

Of the theme that I have declared to you,
I will know that you make together a Great Music.
And I since I have kindled you with the Flame Imperishable,
Ye shall show forth your powers in adorning this theme,
Each with his own thoughts and devices, if he will,
But I will sit and hearken and be glad that through you
great beauty has been wakened into song.
J.R.R. Tolkien

Os povos germânicos ou teutônicos (anglos e saxões) e os povos escandinavos (vikings e jutos) possuíam algo em comum, o qual compartilhavam inevitavelmente: sua mitologia. Mitologia essa, denominada “Mitologia Nórdica”, por conta da localização dos países que a detêm. Ainda que a Germânia (Alemanha) não esteja situada tão ao norte, mas junto a Juteland (Dinamarca) e a Escandinávia (parte norte da Dinamarca somada à Noruega e à Suécia) constitui uma região geográfica que está mais projetada para o norte e, por essa razão, denomina-se a mitologia desses povos afins, de nórdica, ainda conhecida fracionada como “Mitologia Germânica” (ou Teutônica) e como Mitologia Escandinava.

Ao longo dessas regiões, essa mitologia floresceu, arrebatando seus povos com um conhecimento mítico ancestral, caracterizado pela existência de um universo mitológico fantástico, habitado não só por deuses, mas também, por mortais e por seres de outras naturezas, universo esse, sustentado unicamente por uma árvore mítica, que ligava todos os mundos e era a provedora da vida.

Esse imenso universo contido na mitologia nórdica é formado por nove mundos diferentes uns dos outros, que co-existem em um mesmo nível dimensional, mas separados pelos oceanos ou por um rio. Uns se encontram mais acima e outros mais abaixo; cada qual possuía seus próprios habitantes. No centro estava Yggdrasil, a árvore sustentáculo desses mundos. Asgardr (ou Asgard) era o principal dos nove mundos; a morada dos deuses, mundo dos Aesir. Asgardr era ligada ao mundo dos mortais pela ponte em forma de arco-íris, chamada Bifröst. Heimdall era o guardião da ponte entre Asgardr e Midgardr; possuía uma trombeta que podia ser ouvida nos Nove Mundos. Em Asgardr havia muitos palácios, sendo que, cada deus possuía um. Odin, o deus mais importante, possuía três: “Gladsheim, no qual estava a sala de conselho dos deuses, Valaskjalf, no qual estava seu trono e, o mais famoso, para onde iam todos os guerreiros mortos em batalha, o suntuoso Valhalla. De seu trono, Odin assistia a tudo o que acontecia nos nove mundos.

Odin era o deus supremo, o “Pai de Tudo”, o deus das batalhas e o deus dos deuses; pagou com um de seus olhos para beber da água pura da fonte do destino e, assim, obter percepção e conhecimento dessa fonte. Mais foi de Yggdrasil que Odin obteve o segredo das runas, oferecendo-se como sacrifício. Ficou pendurado na árvore, vasado por um lança durante nove longas noites. Ao final, soltou um enorme grito e se libertou. Sabia como curar os doentes, como cegar a espada de seus inimigos e como agarrar uma flecha em pleno vôo (Neil, p. 62, 1996). Thor o deus dos trovões, também vivia em Asgardr; possuía dois touros e uma carruagem puxada por dois bodes, um cinto que dobrava sua força e um par de luvas de ferro, que ele vestia para poder usar seu terrível martelo, Mjöllnir. Seu pai era Odin e sua mãe era a terra (Neil, p. 118, 1996). Midgardr (ou Midgard) era o mundo dos mortais, o mundo dos homens. Era a terra-média que ficava entre o mundo dos deuses e o mundo dos mortos.

Ao seu redor havia um grande oceano que foi dado a Askr e a Embla, o primeiro casal humano. Nesse oceano está a serpente gigante, chamada Jörmungandr, que dá a volta em torno de Midgardr (Neil, p. 66, 1996). Vanaheimr (ou Vanaheim) era a morada dos deuses Vanir, uma família de deuses antigos que eram ex-inimigos dos habitantes de Asgardr, mas que acabaram vivendo em paz. Seus moradores são Njord, “o deus do mar”; Freya (ou Freyja), sua filha e Freyr, ambos, deuses da fertilidade e do amor. Jötunheimr (ou Jotunheim) era o mundo dos gigantes do gelo, inimigos dos deuses e mortais. Alflheimr (ou Alfheim) é o mundo dos elfos da luz, os elfos brancos. Svatalfaheimr (ou Svartalfheim) era o mundo habitado pelos elfos da noite, às vezes, confundidos com os anões de Nidavellir. A terra dos anões é Nidavellir, outro mundo criado pelos deuses ([i]Super Interessante[/i], p. 24, 2005). Muspellheimr (ou Muspell) era um dos mundos mais antigos; um mundo quente e chamejante, morada dos gigantes do fogo e de Surt, “o eterno companheiro do fogo” e guardião de Muspellheimr. Niflheimr (ou Niflheim) é o mundo dos mortos, do gelo e das trevas. É uma terra de escuridão e neblina, cercada também, por ventos e chuvas geladas. Hel é a deusa e rainha que habita nessa terra. Filha de Loki, o trapaceiro e “mago das mentiras” que foi expulso de Ásgardr por Odin, Hel tornou-se a senhora dos mortos. Ela se alegra com a fome e a doença daqueles que morreram, Hel originou o que hoje é a palavra Hell, significando inferno em Inglês. Nas profundezas de Niflheimr vive Nidhug (ou Nídhöggr), um dragão (ou em outras versões, como serpente) que se alimenta de cadáveres e rói a raiz de Yggdrasil.

Os povos nórdicos acreditavam, inclusive, em um fim do mundo, chamado Ragnarok que seria a luta final dos deuses e humanos contra Loki e seu exército de mortos, o guardião de Muspellheimr, Surt, a serpente gigante Jörmungandr, filha de Loki e, seu outro filho que fora aprisionado embaixo de Midgardr, o feroz Fenris-lobo. A batalha somente se iniciará quando o dragão Nídhöggr conseguir partir o tronco de Yggdrasil. Logo depois da destruição de todos e de tudo, um novo mundo surgirá das cinzas. Lif e Lifthrasir, um casal humano escolhido por Yggdrassil, sobreviverá à catástrofe e habitará o novo mundo; seus filhos encontrarão o tabuleiro de ouro com o qual os deuses jogavam seus jogos e se lembrarão de Odin e seus filhos em sua glória nos palácios dourados de Asgardr. Balder e Holder, filhos de Odin, voltarão a viver novamente.Vê-se então que, na mitologia nórdica existe uma regeneração universal contida no mito de Ragnarok. A cosmogonia presente nessa mitologia liga-se à existência de Yggdrasil. A criação desse universo é um processo regenerativo dessa mitologia que se dá a partir da cosmogonia presente e, não há dúvidas de sua verdade: o mito é, novamente, uma verdade aparente. Vê-se no trecho abaixo:

O mito cosmogônico é “verdadeiro” porque a existência do Mundo aí está para prová-lo; o mito da origem da morte é igualmente “verdadeiro” porque é provado pela mortalidade do homem e, assim por diante. (Eliade, p. 12, 1994)

Freyja (ou Freya), a deusa do amor e da fertilidade, liderava as Valquírias, mulheres guerreiras nas batalhas. A imagem das Valquírias e muito da mitologia nórdica chegou à Britannia com a passagem dos povos escandinavos e povos teutônicos naquela região e, também, por conta de suas invenções históricas como invasões e, com a própria miscigenação com povos celtas e romanos ali presentes. Como diz Noemi Paz: “O mito é a expressão de um conhecimento primordial” (Paz, p. 27, 1995).

Portanto, o mito e a mitologia devem ser desprovidos de qualquer pré-conceito que deforme sua importância cultural. Segue-se um trecho que relata uma imagem deturpada sobre essa mitologia, no período da Idade Média, momento histórico em que a crença politeísta estava sendo fortemente reprimida e discriminada:

Das mitologias saxãs pouco resta. Como se sabe, na Escandinávia adoravam as valquírias, divindades guerreiras que voavam e levavam a alma dos guerreiros mortos para o paraíso; e sabemos que também foram veneradas na Inglaterra, graças a um processo do século IX, em que uma velhas foi acusada de ser uma valquíria. Quer dizer que essas mulheres guerreiras foram transformadas pelo cristianismo, em bruxas. Assim, no conceito comum, os velhos deuses foram interpretados como demônios. (Borges, p. 04, 2002)

Sabe-se também que, a maioria dos nomes dos dias da semana, em Língua Inglesa, são originados dos nomes dos deuses da mitologia nórdica. Tuesday (Tíwesdaeg) vem de Thyr, o deus nórdico da guerra e da glória; Wednesday (Wódnesdaeg) vem de Odin (Woden ou Wotan – forma germânica), o deus dos deuses; Thursday (Thunresdaeg) vem de Thor (ou Thunor), o deus do trovão; Friday (Frígedaeg) vem da deusa Frija (Freyja ou Frig), deusa do amor e da fertilidade; Sunday e Monday são os respectivos “dia do sol” e “dia da lua”. Ambos vem da mitologia celta, estando associados à adoração celta ao sol e à lua; Saturday (Sater(n)esdaeg ou Saturni dies, do latin) é “o dia de Saturno pela influência romana. (Borges, p. 03, 2002)

Os povos germânicos produziram um tipo de poesia, que se tornou particular de sua cultura. Os poetas sempre falavam das mesmas coisas, como da lança, do rei, da espada, da terra, do sol. Era sempre uma poesia épica; então começaram a formar palavras compostas para essa poesia, palavras essas que eram utilizadas como metáforas. Dessa forma, chamavam o mar de “caminho da baleia”, “caminho das velas” ou “banho de peixe”, chamavam a nau de “potro do mar”, ou “cervo do mar”, ou ainda, “javali das ondas”. Tem-se ainda, outros exemplos como “o guardião do vento” que era o pássaro e “a lua dos piratas” que era o escudo de batalha. Todos utilizavam essa linguagem e a entendiam, mas ao longo do tempo, elas se tornaram obscuras e verdadeiros enigmas, pois se faziam metáforas de metáforas, como no trecho abaixo:

Uma bastante simples, como esta: ‘o cisne da cerveja dos mortos’, quando nos é apresentada, não sabemos interpretá-la. De modo que, se a decompomos e vemos que ‘a cerveja dos mortos’ significa o sangue e que o ‘cisne do sangue’, isto é, a ave da morte, é o corvo, temos que ‘o cisne da cerveja dos mortos’ significa, simplesmente, ‘corvo. (Borges, pp. 09-10, 2002)

Essas “metáforas descritivas cristalizadas” são chamadas de [i]Kennings[/i] e eram utilizadas em poemas recitados ou cantados como era de tradição dos povos germânicos, semelhante à dos celtas.
Como se vê, a importância dessa cultura mitológica germânica e escandinava, abarca também, uma linguagem única, que estabelece uma ligação dos povos nórdicos com um mundo propriamente mítico, mostrando também que, a essas crenças, elaboram uma atmosfera religiosa que é constantemente exercitada, ao passo que, a mitologia é lembrada e, os deuses são venerados, por serem elementos essenciais dessa atmosfera que expressa o grande valor daquilo que é sagrado.

O universo mítico também simboliza um equilíbrio perfeito entre o bem e o mal, a morte e ávida e, Yggdrasil transcende a simbologia das deidades, ficando em primeiro plano, por se tratar de um elemento que gera vida e a mantém até mesmo depois de uma destruição final, quando tudo parece desaparecer diante da imensidão do vazio. Ragnarok retoma uma condição de perpetuação daquele mundo, como também, determina a destruição do mesmo. Ainda que suas raízes avançassem por nove mundos, chegaria um dia em que a “Árvore da Vida” (Neil, p. 62, 1996) cederia, partindo-se ao meio. Então, a cosmogonia estaria presente novamente, para reconstruir o fabuloso universo mítico e, com ele, restaurar a ordem e a harmonia perpétua.

Um grandioso exemplo que simboliza a poderosa influência germânica e escandinava é o mais antigo poema épico que se conhece da Literatura Inglesa, que conta a história de um valente herói contra a ameaça de terríveis criaturas que aterrorizavam um reino da Dinamarca. O herói era um príncipe da Suécia, chamado Beowulf; seu nome é uma metáfora que quer dizer “lobo das abelhas”; ou seja, “urso”. Beowulf, inicialmente, luta contra uma criatura, provavelmente uma serpente ou dragão que, durante tempos, forçava as portas do palácio “Heorot” do rei Hrothgar, chamado Grendel e se incomodara com o som de uma harpa, que era tocada toda noite pelo jogral que alegrava as reuniões. Após lutar com Grendel e vencer, Beowulf vai atrás de sua mãe, uma horrível bruxa que é ainda, mais forte que a ‘criatura’. Ao final, Beowulf vence e é agradecido com presentes do palácio; a história continua no próprio reino de Beowulf, cinqüenta anos depois, quando sua terra é ameaçada por um terrível dragão. O herói novamente luta e vence, mas sabendo que a morte era certa. Na narrativa, Beowulf ordena como deve ser seu funeral. A história termina com a narrativa do ritual funerário do valente herói e rei, Beowulf.

Acredita-se que essa epopéia, que contém mais de três mil e duzentos versos, foi escrita por um monge, que se baseou em uma antiga lenda germânica e, a partir desta, criou um “experimento erudito e barroco” com uma linguagem obscura e confusa, contendo inclusive, trechos da obra [i]Eneida[/i]. O texto provém de autor anônimo, e os indícios pertinentes na obra indicam ser um monge que o escrevera, porque os sacerdotes eram os únicos a ter acesso aos textos gregos e latinos, o autor seguiu as normas sintáticas latinas para escrever sua obra. Percebe-se ainda, um vínculo à tradição cristã, quando o autor diz que a criatura descende de Caim e, quanto à personagem Beowulf, ao saber de sua provável morte, diz entregar sua alma ao Senhor, afirmando ir ao céu, pois teve uma vida justa.

O poema épico [i]Beowulf[/i] também foi construído, todo ele, pela aliteração expressa na repetição dos fonemas, tal qual, o costume germânico. A presença de personagens como o ogro, a bruxa e o dragão era esperada pelo público que ouvia a história, porque são “símbolos das forças do mal” e representantes do folclore germânico e escandinavo, sendo próprios de sua mitologia. Encontra-se no personagem Beowulf, as virtudes apreciadas na Idade Média, como a lealdade e a coragem (Borges, pp. 13-14, 2005), que vai apresentar ao longo da história.

Entende-se, portanto, que a vida dos povos germânicos e escandinavos estava entrelaçada com suas histórias, culturas, enquanto povos destemidos, navegantes e conquistadores e mitologia, que os fundamentavam a respeito de um mundo mítico e verdadeiro que se mostrava presente na memória popular desde os tempos ancestrais. Apresenta-se a seguir, um trecho que retrata a sensação referente ao mito, ou ao universo mítico, como elementos que transcendem a razão, expressando uma verdade, unicamente mítica, de sua existência:

O mito simboliza, pois, o divino, a partir da realidade que expressa, para a consciência humana, a transcendência num momento dado. Enfatizando, sucessivamente, o vegetal, o animal e o homem, o mito revela o sagrado. Não é nunca o vegetal em si, o animal ou o homem que são sacralizados. Mas através dos diferentes reinos, é algo meta-humano, é uma realidade de metafísica que se expõe à consciência, a invade e a possui. Não se trata também, de mera apresentação do divino, mas de uma participação da consciência no [i]misterium tremendum[/i]. É o Outro que ultrapassa a consciência e, perante o qual, esta se admira. Mas é também, a alegria, o sentir-se parte desta Vida poderosa, na qual a consciência se move e tem o ser. É o estar invadida pelos deuses. (Morais apud César, p. 85, 1988)

Ronald Reuel Tolkien, um gênio da Literatura Inglesa, escreveu a trilogia do clássico [i]O Senhor dos Anéis[/i] (1954-1955), baseando-se no universo mítico da mitologia nórdica. Tolkien quis expressar em sua obra, a sua aversão que tinha à tecnologia provinda do cientificismo de sua época, retratando em um anel, como símbolo máximo de poder que poderia manipular o homem, dominá-lo e lhe causar sofrimentos. Por conta de seu grande conhecimento sobre o anglo-saxão, acabou reproduzindo nessa obra, o universo mítico da mitologia nórdica. Sendo professor de anglo-saxão, Filologia, Língua e Literatura Inglesa, Tolkien soube expressar essa mitologia de maneira brilhante em sua trilogia. Tolkien foi professor em Universidades Inglesas como Leeds, Pembroke, Oxford e Merton. Era ainda, um grande filólogo, conhecedor de dezesseis línguas. Um outro, não menos importante escritor inglês foi Clive S. Lewis, professor universitário, amigo de Tolkien, criador de [i]As crônicas de Nárnia[/i] (1949-1954), obra importantíssima que traz paisagens, cenários e personagens característicos da mitologia dos povos germânicos e escandinavos e, personagens de seu folclore.

Portanto, a Literatura Inglesa não está indiferente à mitologia nórdica. Essa se apresenta nos textos citados, propondo uma evidenciação à sua existência, como um legado rico e antiqüíssimo, que desafia o leitor ou o estudioso de mitologias a mergulhar em seu ambiente fabuloso que se coloca como verdade, remetendo aos povos ancestrais que consideravam os mitos como sendo histórias verdadeiras, mas também, como um evento que deve ser lembrado e, de certa forma, revivido, para que a memória de um povo seja renovada e os mitos transcenderem os tempos. A crença ancestral na verdade dos mitos é relatada no trecho abaixo:

Acrescentemos que, nas sociedades em que o mito ainda está vivo, os indígenas distinguem cuidadosamente os mitos – ‘histórias verdadeiras’ – das fábulas ou contos, que chamam de ‘histórias falsas. (Eliade, p. 13, 1994)

Quando os povos germânicos e os povos escandinavos chegaram na Britannia, encontraram um território desprotegido, no qual poderiam se instalar. O Cristianismo, contudo, prevalecia como religião e foi questão de tempo para que esses povos também se convertessem, ainda que de uma maneira indireta, porque Cristo foi somado por eles como mais um deus, não mais ou menos importante. Ao longo de um processo histórico, também se miscigenaram.

Os trechos que se seguem, de Jorge Luís Borges, relatam como foi a aceitação dos germanos a Cristo e sua conversão, como também, expressam a influência das deidades que ainda estavam fortemente presentes e sua insistência em permanecer na memória coletiva:

Quanto à conversão dos germanos, cabe dizer que não foi difícil, para os germanos politeístas, aceitar mais ou outro deus: um a mais não é nada. (…) A princípio, Cristo não foi mais que um deus novo. O problema da conversão não era, como seria atualmente, individual, mas convertendo o rei, convertia-se todo o povo. (Borges, p. 11, 2002)

Sobre a conquista espiritual há vários detalhes a salientar, primeiramente, a maneira pela qual os pagãos receberam Cristo. Conta Beda, o Venerável, de um rei que tinha dois altares: um dedicado a Cristo e outro aos demônios. Esses demônios são, sem dúvida nenhuma, os deuses germânicos. (Borges, p. 05, 2002)

Para completar a argumentação quanto à valorização e resgate dessa mitologia, vale relembrar a imponência do símbolo mítico de Yggdrasil, que é, sem dúvida alguma, o arquétipo da vida, de sua constante movimentação e de seus ciclos naturais. Ela está no centro do universo mítico porque é um “símbolo da realidade absoluta” (Eliade, p. 27, 1992) e, através de suas raízes, firma os mundos e os fertilizam com vida e continuidade, garantindo sua existência. A cosmogonia expressa na árvores mítica e, por meio dessa, dá uma impressão de nobreza. R. B. Andersen expressa essa idéia muito bem, ao escrever:

O freixo de Yggdrasil é uma das mais nobres concepções, jamais introduzidas num sistema de cosmogonia ou de existência humana. É, de fato, a grande árvore da vida, maravilhosamente elaborada e estendendo-se por todo o sistema do universo. Ela fornece corpos ao gênero humano por seus ramos, estende suas raízes através de todos os mudos e dispersa, nos céus, seus braços que dão vida. É por ela que se mantém todo tipo de vida, mesmo a das serpentes que devoram suas raízes e tentam destruí-la (…)
(…) e, segundo sua vida, compreenderíamos que se possa sonhar que os animais saem do vegetal, que a árvore é, verdadeiramente, sua árvore genealógica; os animais se movem nela e em torno dela; cada espécie de animal tem aí, seu lugar e seu destino. A águia, o falcão, o esquilo, não são os únicos a receber o seu benefício; quatro potros se alimentam de seus rebentos (…) (Andersen [i]apud[/i] Bachelard, pp. 34-54, 1990)

Tem-se ainda, um trecho que expressa uma idéia conclusiva quanto à importância da árvore mítica:

O caráter particular do mito de Yggdrasil é a sua brevidade expressiva. Como é belo o espetáculo de uma grande árvore! Seus ramos estendendo-se ao longe, seu caule coberto de musgo, suas profundas raízes nos lembram a infinidade do tempo; ela viu escoarem os séculos antes que tivéssemos nascido (…) É preciso nada menos que uma alma infinita para compreendê-la; nenhum pincel pode pintá-la, nenhuma cor representá-la. Não é tranqüilo, nada está em repouso; tudo é atividade. É o mundo inteiro e, ele só pode ser compreendido pelo espírito do homem, pela alma do poeta e, ser simbolizado pelo fluxo incessante da linguagem. (Andersen [i]apud[/i] Bachelard, pp. 53-55, 1990)

A Mitologia Nórdica apresenta e relata um processo histórico referente à propagação de sua cultura e permanência da mesma, mesmo enquanto os germanos e os escandinavos se miscigenavam com outros povos, difundindo-se. Como se vê, sua passagem pela Britannia deixa marcas inegáveis de sua mitologia vibrante; mitologia essa, que contribui para a formação cultural de um povo, utilizando-se de suas crenças e essência para retratar nas histórias antigas, o seu misticismo fundamental.

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[b]Considerações Finais[/b]

A Mitologia Celta e a Mitologia Nórdica representam não somente a religiosidade e cultura de seus povos, mas também, a sua incessante necessidade de perpetuar sua crença e suas tradições. Simbolizam ainda, a participação histórica desses povos no processo de miscigenação e formação étnica da Grã-Bretanha, revelando muito do que se liga a ela através do folclore britânico.

As características restantes dessas mitologias no folclore britânico são um argumento muito forte, no qual baseou-se ao dizer que, não foram somente resquícios que permaneceram, mas sim, elementos comprobatórios da legítima influência da cultura e crença dos povos ancestrais. Essas mitologias não foram descaracterizadas e desgastadas com o tempo, mas tiradas de foco, evidenciando então, uma deficiência na propagação de suas histórias.

A Literatura Inglesa, no processo de aprendizagem da Língua Inglesa conhecendo o seu léxico e cultura, deve-se abordar a história desses povos e sua mitologia como caracteres essenciais para a discussão e compreensão da cultura britânica, como também, a cultura particular veiculada pela Língua Inglesa, descobrindo que essa tem raízes nas línguas celtas e anglo-saxônica. Afirma-se abaixo, a importância do mito como narrativa ancestral:

Sua origem perde-se no princípio dos tempos. São narrativas tão antigas quanto o próprio homem; e nos falam de deuses, duendes, heróis fabulosos ou de situações onde o sobrenatural domina. Os mitos estão sempre ligados a fenômenos inaugurais: a genealogia dos deuses, a criação do mundo e do homem, a explicação mágica das forças da natureza, etc. (Coelho, p.80, 1982)

E ainda, reforça-se aqui, o caráter de necessidade da presença do mito nas comunidades primevas no seguinte trecho:

(…) ao rememorar os mitos e reatualizá-los, ele é capaz de repetir o que os deuses, os Heróis ou os Ancestrais fizeram [i]ab origine[/i]. Conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. Em outros termos, aprende-se não somente como as coisas vieram à existência, mas também, onde encontrá-las e como fazer com que reapareçam quando desaparecem. (Eliade, p.18, 1994)

Ainda que no aprendizado da Língua Inglesa seja priorizado, em primeira instância, o processo de aquisição do léxico, deve-se voltar um olhar para a cultura da língua, descobrindo então, uma herança cultural arcaica que se faz presente nas mitologias dos celtas e dos nórdicos. Buscar textos e contos que resgatam essas mitologias, como sem dúvida seus mitos, é voltar na história desses povos e penetrar em sua essência.

Os mitos detêm uma narrativa de encanto e eloquência, como a mitologia propriamente dita, reservando um especial aspecto de misticismo e sacralidade às histórias, aguçando a necessidade de um envolvimento maior com essas narrativas, evidenciando o importante veículo da leitura para a compreensão dessas culturas ali presentes. O ensino da Língua Inglesa deve abarcar essas mitologias, preocupando-se não somente com a aquisição de vocábulos e da pronúncia dos mesmos, mas comportando em si, a história da Britannia junto aos povos celtas e nórdicos e sua cultura, representando mais um elemento a ser descoberto pelo estudante, voltando seu estudo para discussões ligadas a questões culturais, enfatizando a cultura antiga desses povos que habitavam a Europa, e questões históricas, ressaltando a movimentação desses povos e suas intervenções no continente europeu e, particularmente, na Britannia.

Por razão do Inglês Arcaico ser considerado e nomeado de anglo-saxão, considera-se como a mais velha narrativa épica da Literatura Inglesa, a epopéia [i]Beowulf[/i]. Há outro exemplo nas [i]Eddas[/i] (as duas antologias de mitologia e lendas escandinavas da antiga literatura Islandesa) que são as correspondências dos deuses entre os povos, como Odin para os escandinavos, Wotan para os germânicos e Woden na versão bretã (Borges, p. 03, 2002) e, por essa razão, o nome desse deus é modificado para formar a palavra “Wednesday”, quarta-feira em inglês. O mesmo evento aconteceu com outros nomes de deuses nos nomes dos dias da semana, em Língua Inglesa, conferindo uma certa permanência da mitologia antiga. O aluno poderá, ainda, discutir a idéia do estereótipo “bruxa” e privá-lo de seu sentido carregado de preconceito, privando também, as crenças desses povos politeístas de qualquer imagem errada, desencadeada a partir da Idade Média, ou mesmo antes, pelos relatos de Júlio César. “À imagem da Grande Mãe está provavelmente ligada aos diferentes contos e relatos de bruxas e de madrastas que, igualmente carregam, muitas vezes, os traços de feitiçaria”.

Denota-se, dessa forma, uma imagem negativa da Grande Mãe (ou Grande Deusa), evidenciando o preconceito, aqui já discutido, com a associação dos deuses dos politeístas com o demônio do Cristianismo. “Entretanto, como mãe no verdadeiro sentido da palavra, como genitora de um deus ou de um herói, ou até mesmo, como ‘madona’, ela adquire uma luz profundamente positiva”. (Meletínski, p. 109, 1998)

É impressionante como a Mitologia Celta e a Mitologia Nórdica apresentam elementos que adquirem aspectos iguais, como a valorização e adorações celtas quanto à natureza e ao carvalho e, a adoração nórdica à árvore mítica, a árvore da vida, Yggdrasil; ou mesmo, objetos de grande força e fascínio, como o caldeirão de Dagda, a lança mágica de Lugh, a espada Excalibur de Arthur da mitologia celta e a luva e o cinturão de poder de Thor e, a espada e a lança de Odin. Vê-se ainda, a eterna luta celta entre a luz e as trevas e o conflito final nórdico Ragnarok. Sustenta-se, dessa forma, a idéia de renovação constante dessas mitologias expressas nas tradições desses povos. “Toda criação repete o ato cosmogônico pré-eminente, a criação do mundo”. (Eliade, p. 27, 1992)

Os trechos que se seguem, apresentam também essa idéia:

Todos os ritos celebrados nessas sociedades são a própria condição de perpetuação do mito, pois que, através deles, o mito ganha vida e, o homem, objetivando emoções profundas, vive em presença dos deuses, em perfeita comunhão com o divino. (Morais [i]apud[/i] Fabri, p. 32, 1988)

O mundo mítico é, primordialmente, o mundo da ação. Todas as ações são verdadeiros ritos, assim como os ritos são verdadeiras ações. Através dos gestos e atitudes, os ritos realizam o que a ação executa diretamente. As ações são gestos sagrados, uma vez que elas são realizadas pelas potências sagradas. Estas agem diretamente, pois estão imediatamente presentes no mundo. Esta presença imediata de tudo em tudo, caracteriza todo o mundo primitivo. Todo o tempo está, por exemplo, presente no mesmo e sempre único instante. Não há distinção entre as dimensões temporais: presente, passado, futuro. Há sempre um presente eterno. Tudo ocorre hoje, como ocorreu nos primórdios. A festa religiosa procura manifestar claramente isto. Ele comemora e não vai nisto uma pura lembrança. Ela é uma liturgia que representa, de maneira idêntica, o que aconteceu no princípio dos tempos. Esta repetição também acontece em relação ao espaço. Cada lugar é a repetição do outro que, de fato, não é considerado como sendo outro. Não existe, por isso, uma seqüência espacial, logicamente organizada. Assim também, toda pessoa é a outra, que a ela não se opõe, mas se identifica. Daí, não é difícil conceber como cada personagem do mundo é a repetição da própria divindade. (Morais [i]apud[/i] Moura, p. 55, 1988)

Para Roland Barthes, o mito é uma fala porque se utiliza de uma língua para se propagar, sedo essa língua, a matéria-prima da fala mítica (Barthes, p. 205, 2003). Barthes considera o mito como um sistema semiológico pelo uso dessa língua e o define como “sistema semiológico segundo”, contendo significantes e significados, formando assim, os signos que resultam no próprio mito, aludindo então, à teoria semiológica de Saussure (Barthes, p. 205, 2003). Logo, Constança Marcondes César (1988), define o caráter de inegável importância do mito:

[O mito] não é uma narração fabulosa, mas um pensamento simbólico, mais rico e mais amplo que qualquer saber discursivo. É o conteúdo religioso determinante de uma cultura; é uma filosofia meta-conscienciológica, no sentido de que sua totalidade é apreensível apenas pelo ser. (César [i]apud[/i] Morais, p. 83, 1988)

Vem-se novamente afirmar, a importância dessas mitologias, tanto para se compreender o valor cultural da Língua Inglesa e de sua literatura ao longo do processo histórico de sua formação, como também, a formação étnica de seu povo. Referindo-se ao tempo da queda do império romano e sua retirada, Anthony Burgess (2004) refere-se ao povo bretão quando diz: “um povo domesticado pela civilização e pelo domínio colonial ficou entregue a si mesmo e a qualquer invasor brutal que quisesse vir da Europa” (Burgess, p. 23, 2004).

Contudo, por mais que os romanos quisessem romanizar os povos da Britannia, não conseguiram de fato, apagar totalmente a mitologia celta que, junto à mitologia nórdica, compõem a essência cultural bretã, na qual deve ser buscada e compreendida. Ao resgatar essas mitologias, rememore-as pela sua eloqüência e fascínio, pois os Mitos representam o legado dos ancestrais.

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