O Nascimento do Homem

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Imagem do deus Enki

Sobre um tempo remoto, do qual temos raras notícias, ouvimos a seguinte história:

Moravam em Dilmun, Enki e sua esposa Ninhursag.
Em Dilmun o corvo não grasna,
O milhano não emite seus guinchos,
O leão não mata,
O lobo não devora o cordeiro,
E desconhecido é o cão selvagem devorador de cabritos.
Lá a pomba não curva a cabeça,
O doente da vista não diz “eu sou doente da vista”,
O doente da cabeça não diz “eu sou doente da cabeça”,
A senhora idosa não diz “eu sou uma senhora idosa”,
E o homem idoso não diz “eu sou um homem idoso”,

No princípio dos tempos, a deusa-mãe Nammu (mar primevo) pariu Ki (Terra) e An (Céu), dando à luz uma montanha cósmica cuja base, pairando sobre o abismo das águas, era o fundo da terra, enquanto o seu topo era o zênite do céu.

Eis que o grande deus Anki gerou o deus-ar Enlil. Enlil, então, separou Terra e Céu, e dessa separação surgiu um panteão de deuses. Esses deuses viviam em sua cidade celestial cultivando seus campos de cereais.

Entretanto, houve um tempo em que as colheitas falharam devido à negligência dos deuses. A velha mãe-água Nammu percebeu a situação de sua progênie e procurou Enki, o mais inteligente de todos, o senhor do abismo das águas, que encontrava-se em profundo sono em seu leito. Ela o acordou e falou-lhe da tristeza dos deuses.

“Levanta-te desse leito e realiza uma grande obra de sabedoria. Fabrique servos para assumir a tarefa dos deuses.”
E o sábio Enki, levantando-se disse: “Ó Mãe, isso pode ser feito!”.
“Vá”, ele disse, “e busca um punhado de barro do fundo da terra, logo acima da superfície do nosso abismo das águas e modela-o na forma de um coração. Produzirei bons e magníficos artesãos que darão a esse barro a consistência adequada. E então tu farás os membros. Acima de ti a mãe- Terra, minha esposa divina, estará parindo e oito deusas do parto estarão à disposição para assisti-la. Tu determinarás o destino do recém nascido. A mãe-Terra imprimirá em cada um deles a imagem dos deuses, e ele será Homem.”

A obra foi realizada. A deusa-Terra, esposa de Enki (En “Senhor”, ki “Terra”), assistida pelas oitos deusas do parto, deu à luz o barro. Bons e magníficos artesãos deram-lhe a consistência certa e Nammu modelou o primeiro coração e depois o corpo e os membros.

Em seguida, para celebrar, Enki fez uma festa para sua esposa e sua mãe, à qual convidou todos os deuses; pois ele havia realizado a suprema tarefa da criação do Homem. Os deuses perceberam a extensão da sua obra e passaram a elogiar Enki, com uma bajulação desmedida, pela invenção de uma raça que serviria de escrava para os deuses, trabalhando diligentemente as lavouras de onde agora teriam gorduras e provisões para sacrifícios sem-fim.

Cada divindade teria a sua própria fazenda e solar, com um supervisor, que representaria na terra o papel real de Enlil entre os deuses. A morada do representante seria um símbolo na terra da montanha-mundo de Enlil. Sua rainha seria a correspondente da encantadora deusa Ninlil (o planeta Vênus). E tudo seria na terra como é no céu.

Foi uma grande festa e tanto Enki quanto sua esposa logo ficaram hilariamente embriagados.
Seus corações ficaram exaltados e a deusa perguntou ao deus:
“Quão bom, realmente, ou quão mau, pode ser um corpo humano?
Seguindo o impulso do meu coração, farei o corpo bom ou torná-lo-ei mau.”
E Enki, cheio de compreensão, respondeu:
“Qualquer que seja o corpo que vier de tuas mãos, encontrarei um lugar para ele.”

Ela pegou um punhado daquele barro e modelou seis criaturas defeituosas, cada uma com uma grave deficiência física: uma mulher incapaz de parir, um ser sem orgão sexual masculino, nem feminino, e outras aberrações. Mas, para cada um, à medida que foram surgindo, Enki foi capaz de sugerir um lugar:
Enki, ao ver a mulher que não podia parir,
Determinou seu destino: ser colocada num harém.
Enki, ao ver o ser sem sexo masculino ou feminino,
Determinou seu destino: postar-se diante do rei…

E também aos outros quatro, Enki foi capaz de encontrar uma utilidade. Entretanto a brincadeira ainda não tinha acabado; pois Enki, achando que tinha vencido, desafiou a deusa a trocar de lugar, ele agora criaria e a deusa determinaria seu destino.

Enki fez então uma criatura chamada “Meu Dia de Nascimento é Remoto”, com fígado e coração doloridos, olhos enfermos, mãos trêmulas e sem espírito. Então ele falou à deusa:
“Para cada um que tu modelaste, indiquei prontamente um lugar;
Portanto, a este que modelei, agora darás tu o lugar
Onde deverá ele subsistir.”

A deusa aproximou-se da criatura e lhe falou. Ela foi incapaz de responder. Ofereceu-lhe pão. A criatura foi incapaz de pegá-lo. Não podia sentar-se, ficar de pé ou dobrar os joelhos. A deusa foi incapaz de determinar-lhe qualquer destino.

E assim Enki criou outros. A doença, a loucura e similares foram assim criados, enquanto Enki, maliciosamente, deixava a deusa sem saída.
“Minha cidade está destruída, minha casa arruinada;” gritou a deusa,
“Meus filhos foram feitos prisioneiros.
Fui exilada da cidade-montanha dos deuses:
Nem mesmo eu escapo de tuas mãos!
Daqui em diante tu não habitarás nem no céu nem na terra.”
E, assim, Enki, condenado pela deusa-Mãe da humanidade, foi exilado da terra para o abismo.
“Uma ordem saída de tua boca”, ele disse, “quem poderá mudá-la?”