Escuridão – Capítulo 10

Capítulo 9

Autora: Monica Ferreira

Nada foi resolvido, pois não tinha nada mais a fazer.

No dia seguinte, pela manhã, Nêmesis preparou-se para ir embora, despedindo-se mentalmente do quarto onde dormira, o mesmo que a hospedou por um tempo. Não teve coragem de dormir nos aposentos principais, muito menos de encará-lo, mas era inevitável.

Vestiu novamente sua túnica preta, a mesma que usava quando chegou àquele lugar. Pegando da espada repousada em uma bainha que Hades lhe dera, dirigiu-se à sala do trono, sentindo uma estranheza por não mais pertencer àquele lugar, não reconhecer mais os corredores, as paredes, as portas, o palácio inteiro, até mesmo seu regente.

– Estou pronta. – Disse, ao chegar. O deus lançou-lhe seu olhar triste e corriqueiro, mas não evitou sentir-se atraído pela moça. Mesmo resignada, a deusa continuava bela.

– Nêmesis… Sussurrou, melancólico. Acariciou pela última vez o rosto alvo da jovem e levantou o seu queixo, fazendo-a olhar para ele. – Perdoe-me.

Os olhos marejados e a voz entrecortada impediram que continuasse. A jovem não fez mais do que esboçar um sorriso triste, tentando esconder a raiva que sentia em seu peito. Segurando suas mãos, ele continuou:

– Quero que faça algo, antes de partir.

A voz grave a fez estremecer por dentro, temendo mais uma decepção.

– Nêmesis, você viveu muito tempo no submundo, respirando este ar, tocando em cada objeto, alimentando-se dos frutos daqui… Sei que não sairá a mesma do que quando chegou, mas não poderei deixá-la ir como está. É necessário que se purifique, banhando-se no Estige. Duas criadas irão acompanhá-la até o rio e, de lá, terá que ir embora.

– Por que eu estava imaginando que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde? – Comentou a deusa, a voz entrecortada pelo choro que insistia em aparecer. Não houve resposta, muito menos um beijo de despedida. Houve apenas um abraço demorado, que se desfez ao ouvirem os passos das moças.

Já bem informadas sobre a saída de Nêmesis, as almas transeuntes apenas a seguiam com o olhar, vendo-a entrar na floresta que circunda o Estige. A deusa enxugava rápido todas as lágrimas que teimavam em cair, pois não queria que a vissem neste estado e que sentissem pena. Sabia que uma parcela grande da culpa era sua, mas não queria que lhe apontassem o dedo.

Chegaram ao bosque. Não deixou que as criadas a despissem. Fez isso sozinha, deixando o vestido, a espada e as sandálias nas mãos de uma delas. Prendeu os cabelos em um coque alto e entrou no rio.

A água gelada parecia invadir sua alma como farpas penetrando a carne, deixando as pernas dormentes por um breve instante. Não virou-se para a margem de onde veio, ao contrário, olhou em volta, para a escuridão da mata ciliar, tentando encontrar algo ou alguém que pudesse livrar-lhe daquela sina, daquele destino tão implacável.

Não demorou muito. Assim que retirou-se das águas, uma criada veio ao seu encontro com um pano para secar-se, seguido pela outra, com seu vestido. Depois de pronta, penteou os cabelos com os dedos, terminando enfim, de arrumar-se.

– Podem voltar ao palácio. Obrigada por me acompanharem. Diga a Hades que já estou indo embora.

– Perdão, senhora, mas o soberano pediu para que a levássemos até os portões.

– Eu posso ir sozinha. Terei todos os súditos dele como testemunhas, o que acham que vou fazer?

De repente, as três ouviram a voz suave de uma ninfa amenizando a situação:

– Não se preocupem, meninas. Eu a acompanho.

Era Mentes, que resolveu ter seu momento de vitória assim que ficou a par da saída da moça. A deusa soltou um suspirou de enfado, aborrecida com a aparição. A ninfa era a última pessoa que queria encontrar em sua despedida. Mas para evitar uma indisposição com ela na frente das criadas, pediu para que voltassem ao palácio e ficou a sós com a ninfa.

– E então? Está feliz? – Perguntou Nêmesis, o ódio contido numa expressão de desprezo, ignorando Mentes e pisando firme pela mesma trilha das serviçais.

– Meu sorriso responde a sua pergunta. E você escondendo o jogo… Mas não adiantou nada, viu? Você o perdeu e eu o ganhei! – Respondeu a ninfa, tendo um certo trabalho em seguir a divindade.

– Será por pouco tempo. Ele mesmo me disse que não ficará mais tão sozinho quanto antes.

– É claro que não. Eu ficarei ao seu lado, como rege o nosso desti-

– Pare de se enganar!!! – Gritou a moça, virando-se bruscamente, assustando a ninfa. – Ele não vai ficar com você! A esposa dele será uma filha de Zeus, de nome Perséfone! Aceite isso de uma vez por todas!!!

O silêncio que se seguiu foi a deixa para a divindade apressar ainda mais o passo e sair da floresta sozinha. De uma, pelo menos, estava livre. Agora precisaria passar pelas Erínias, caso aparecessem. Ao deparar-se com os habituais descampados, viu uma multidão esperando-a. Eram almas de inúmeras regiões que vieram despedir-se, acompanhá-la nos portões de entrada.

Seus olhares demonstravam toda a compaixão que recebia em seus julgamentos. Apesar de Nêmesis nunca ter-lhes dirigido uma palavra pessoalmente, sempre fora uma deusa muito respeitada e querida, além de ser muito elogiada pela sua justiça. Tê-la como rainha do mundo dos mortos, alegrando a vida de seu regente, era gratificante para eles, seus involuntários e desditosos súditos.

Vê-la partir assim, sem ao menos receber um adeus daquele que a amara com todo o seu coração, era para os mortos, algo revoltante, quase um sacrilégio. Eles pressentiam que a futura esposa de Hades não seria justa e correta como Nêmesis, mas sim uma deusa orgulhosa e soberba, talvez até odiosa de tudo e todos por ali.

Abriram caminho para a moça. Não conseguia olhar em seus rostos, tanto que passou cabisbaixa, os olhos pregados no chão, a tristeza novamente invadindo o seu peito. Ao chegar aos portões, não pôde evitar dizer algumas palavras:

– Eu…

Hesitou. A multidão parada, os mortos um ao lado do outro, enfileirados como soldados, esperou que a moça continuasse. O silêncio parecia maior do que o habitual e os olhos fundos de seus corpos etéreos a deixavam com uma ponta de pavor. Continuou, a voz cada vez mais firme:

– Eu fui muito bem recebida aqui. Irei levar todas as lembranças boas para todo o sempre. Apesar do que aconteceu, não estou arrependida do que fiz. Cuidem bem da próxima moça que vier. E obrigada por tudo.

Virou-se. Um dos portões abriu-se sozinho e a moça passou sem dificuldade e sem olhar para trás. Nem mesmo Cérbero teve ânimo de sair de sua caverna para brincar e obedecer a nova dona que agora ia embora para sempre. Caronte já a esperava à beira do rio, mais entristecido do que antes. As rugas de seu rosto pareciam multiplicadas com os acontecimentos.

– Eu gostava da senhora. – Murmurou. O olhar negro habitual mostrava-se ainda mais triste e resignado.

– Perdoe-me Caronte, mas não trouxe nenhuma moeda para pagar a viagem de volta. Sempre imaginei que, quando saísse daqui, Hermes me trouxesse alguma…

– Imagine, senhora. Depois de tudo o que fez pelo meu senhor, irei levá-la como cortesia. Durante toda a minha existência como barqueiro do mundo dos mortos, nunca vi o senhor Hades tão feliz como em todos os meses que passou ao seu lado. Sinto-me honrado em levá-la… E ser a última pessoa a vê-la partir.

Nêmesis deu-lhe um caloroso abraço. O velho ficou sem jeito, pois era, talvez, o único gesto de afeto que recebera durante toda a sua existência. Não deteve as lágrimas e deixou-as rolar até a sua espessa barba. Ao se separarem, ergueu a mão para a moça embarcar em seu bote.

A viagem foi ainda mais lenta do que quando chegou, mas encontrou o seu fim. As almas corriqueiras da margem de entrada, ao verem a deusa junto ao barqueiro, novamente recusaram-se a se aproximar do barco. Olharam, confusas, para a moça que em um momento mostrava-se feliz ao lado de seu amado, e que agora desaparecera escadaria acima, sob a luz fraca do sol de inverno que se iniciava.

Epílogo

Papo Lendário #165 – O Filho do Pai

Neste episódio do Papo Lendário, Leonardo e Pablo de Assis conversam sobre Inri Cristo.

Conheça quem é Inri Cristo.

Saiba o que foi o Ato Libertário.

Descubra se as ideias desse profeta fazem sentido ou não.

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Padrim do Mitografias

Escuridão – Capítulo 9

Capítulo 8

Autora: Monica Ferreira

Como era de se esperar, o casal voltou desolado para o mundo dos mortos. Hades não sabia o que pensar, enquanto a moça permanecia apática. O deus dos mortos remoía-se por dentro, o remorso começando a tomar seu coração e pensamentos obscuros a sua mente.

Desceram da carruagem, já na clareira. A jovem fora a primeira a descer e andando rápido, seguia na frente, enquanto Hades tentava alcançá-la.

– Nêmesis, espere – pediu, segurando o braço da moça, fazendo-a virar-se. – Querida, não se deixe levar pelo que meu irmão disse. Você será a minha única esposa, a única mulher que eu amo.

– Perdoe-me Hades, mas não estou pensando nisso. Estou pensando no que Zeus me disse sobre eu voltar, retomar minhas funções. Sou muito feliz ao seu lado, meu amor, mas ele tocou no assunto que eu mais temia. Confesso que me senti animada com a ideia, uma ponta de esperança renasceu dentro de mim! Sinto falta da minha vida anterior, Hades. Sinto falta das sentenças que aplicava aos mortais gananciosos, de vê-los seguir as suas vidas prosperando e temendo aos deuses. Deve me achar uma ingrata, não é? Não precisa dizer.

O deus aproximou-se devagar e pegou em suas mãos, olhando-a em seus olhos.

– Parece que não consigo mesmo agradar sempre. Desde que chegou aqui em meus domínios, soube que seria a companhia perfeita para mim. Também me sinto feliz ao seu lado! Não sei mais o que é viver sozinho. É claro que entendo perfeitamente a saudade que sente e jamais a proibiria de voltar. Mas, se realmente quiser retornar ao Olimpo, saiba que será um caminho sem volta. As Moiras cumprirão o seu papel, e eu estarei casado com a filha de Zeus.

O semblante do deus tornou-se mais sombrio que de costume, deixando Nêmesis temerosa, engolindo em seco tudo o que lhe dissera. Mas foi por um breve momento, pois logo tornou-se calmo e gentil.

– Vamos entrar. Encontraremos uma solução, não se preocupe.

***

Desceram as escadas de mãos dadas, mas era visível em seus rostos que o passeio não foi dos melhores, portanto ninguém os incomodou. Ao chegar no palácio, foram recebidos por um criado afoito e amedrontado.

– Senhor Hades, – disse, tomando fôlego. – O senhor tem visitas. Elas estão esperando há tempos.

O deus entrou apressado pela sala do trono, seguido pela esposa e encontrou as fiandeiras do destino, citadas agora há pouco. Sentadas em um banco ao fundo da sala, enrolavam a lã em novelos, silenciosas como o tempo.

– Moiras?! – Exclamou. As velhas levantaram os olhares e franziram o cenho ao ver a moça ao lado do deus. – Q-que surpresa vê-las em meu palácio. O que as trazem aqui?

Láquesis, a responsável por selecionar e conduzir cada linha da vida ao seu destino, aproximou-se lentamente do casal e cumprimentou-os:

– Hades, senhor dos mortos, sei que está surpreso em nos ver fora de nossa morada, mas queríamos nós mesmas, reparar o erro que cometemos.

O casal olhou-se, incrédulo. A Moira continuou:

– Será doloroso ouvir o que tenho a dizer, mas não podemos fugir de nosso destino, nem mesmo nós, as deusas que o regem.

– O que quer dizer? – Indagou o regente, já temendo o pior.

– Sabemos o que houve em seu passeio pela Hélade, pois fomos nós que causamos este encontro. Fizemos isso como uma forma de alertá-lo sobre o seu futuro. Nêmesis, apesar de lhe ter sido uma boa companheira, não pode mais continuar ao seu lado. Ela já cumpriu o seu papel no submundo e agora terá que voltar ao Olimpo. Sinto muito, Hades, mas a mulher com quem passará toda a sua eternidade não é a deusa da vingança.

A jovem não esperou que ela terminasse a explicação e a interrompeu com um grito cortante:

– Suas velhas malditas!!!

O silêncio que se seguiu foi aterrador. O deus dos mortos olhou, horrorizado, para a jovem transtornada. Seus cabelos úmidos estavam caídos na frente do rosto, a respiração ofegante, as mãos fechadas em punho na saia do vestido.

A respiração dera lugar a um choro copioso, um choro misturado com ódio e mágoa, que fizera Láquesis encolher-se de medo e as outras Moiras levantarem correndo para socorrê-la.

– Vocês… Vocês traçam os destinos de todos, armam ciladas, entrelaçam vidas e depois se arrependem?! Suas desgraçadas!!! Vou retalhá-las aqui mesmo e jogar seus corpos no Aqueronte!

E logo desembainhou a espada, avançando para cima da velha, sendo impedida pelo esposo, parando-a em sua frente.

– Pare com isso, Nêmesis! Sua fúria não levará a nada!

Diante de Hades, a espada espetada em seu peito, a deusa deixou-a cair no chão, desabando aos pés do amado. As mãos enterradas no rosto escondiam os soluços cada vez mais altos, o desespero tomara conta de seu ser.

O deus abaixou-se e a abraçou forte. Duas almas escurecidas pela existência fatídica e agora pela dor, observadas pelas deusas causadoras de toda aquela trama.

– Acalme-se, meu amor. Resolveremos tudo, acalme-se. – O deus afagava seus cabelos negros, a certeza desaparecendo nos sussurros, aquela que tanto o acompanhou ao julgar os mortos.

Nem era preciso as Moiras anunciar sua despedida, pois já recolhiam seus novelos e dirigiam-se para fora. Estavam tristes, pois a moça também era irmã delas, filhas da deusa Nix, a noite escura e primordial.

E como se a própria noite estivesse ali, a escuridão os envolveu, quente, confortável, acalentando-os sob um véu negro sem estrelas.

Capítulo 10

Papo Cético #05 – ¿A Mágica é uma mentira honesta?

Papo Cético #05 - ¿A Mágica é uma mentira honesta?

Papo Cético #05 - ¿A Mágica é uma mentira honesta?De antigos feiticeiros a apresentadores de palco, passando por charlatões, sacerdotes, curandeiros e ilusionistas, a mágica sempre esteve lado a lado ao conhecimento – mesmo que para o não iniciado esse conhecimento seja de alguma forma sobrenatural. Mas conhecer a mágica é saber que ela, mais do que uma forma de enganar, é principalmente uma ciência, uma forma de investigar e conhecer não só o mundo, mas principalmente as pessoas que vivem nele. Mas, seria essa ciência baseada na mentira, ou seria essa mentira uma forma de ser honesto?

Duração: 59 minutos

Comentado no Episódio

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Padrim do Mitografias

Escuridão – Capítulo 8

Capítulo 7

Autora: Monica Ferreira

A moça vestia uma túnica preta, de mangas longas e ombros à mostra, bordada com pequenos brilhantes. Hades vestia seu tradicional manto escuro e sob este, uma túnica negra. Os cabelos revoltosos de ambos brigavam com a gélida ventania que vinha do norte, mas nenhum deles se importava. Ora beijavam-se, ora corriam para sentir o ar em seus pulmões e o sangue pulsar em suas veias.

O tempo fechara-se completamente, com grossas nuvens cobrindo o sol que já não mais aparecia. A chuva não demorou em cair, mas ambos sequer se preocupavam em procurar abrigo. Nêmesis estava radiante e corria pelos campos como se fosse um dia quente de verão, sem se importar com as roupas encharcadas ou sandálias enlameadas.

– Nunca pensei que poderia sentir tanta falta da chuva… – Comentou, aproximando-se do esposo, extasiado por vê-la assim, tão feliz. Os cabelos grudados em volta do rosto, delicadamente retirados por Hades, tornavam a sua visão ainda mais encantadora.

– Você é tão linda… – Sussurrou o deus, sendo recompensado com um beijo.

A chuva caía solta pelo campo e o casal ria alegremente, como se só existissem os dois naquela terra. Conversavam frivolidades, brincavam entre si, corriam. O passeio, porém, não terminaria ali. Um relâmpago ribombou perto deles, seguido por um raio e um homem de barbas grisalhas apareceu diante de seus olhos. A expressão severa e o porte imponente não restavam dúvidas sobre quem estava ali: Zeus, o rei do dos deuses, senhor das tempestades. Uma aura dourada reluzia em volta do deus o impedia de molhar-se na própria chuva.

Houve um silêncio aterrador. Apenas o ruído da água caindo sobre a relva era o que se ouvia. Nêmesis ficou paralisada ao lado do soberano, olhando para o seu algoz com uma expressão séria e na defensiva.

– Pelo visto, sua estadia no mundo dos mortos não foi como eu pensava, não é? – Comentou o regente do Olimpo, ao olhar as divindades à sua frente. – Na verdade, eu vim fazer justamente o contrário do que eu fiz. Eu vim libertá-la.

A moça fitou-o incrédula, acompanhada por um Hades perplexo. Era o seu irmão ali, mas não conseguia prever seus pensamentos ou suas ações, o que o deixava completamente temeroso sobre o que fazer.

– Nêmesis… – Chamou Zeus, aproximando-se da deusa. – Eu, o senhor de todo o Olimpo, venho humildemente lhe pedir perdão. Perdão pelos meus impulsos, em como fui um tolo por deixar-me levar pela sua beleza e causar todo o mal que resultou em sua vingança e em minha punição. Sei que minha ordem que levá-la ao Tártaro não foi cumprida, mas isso não me interessa mais. Venho também lhe conceder novamente a liberdade. Poderá retornar à Ramnunte ou ao Olimpo, no comando de suas funções.

Imediatamente, a deusa sentiu os grilhões que prendiam suas asas abrirem-se num estalo, o que fez com que elas se mostrassem como são. Hades estava apreensivo, pois sabia que poderia perdê-la, caso aceitasse ir embora. Zeus mostrava-se realmente arrependido pelo que fizera. Seus olhos claros não negavam sua sinceridade, mas era inevitável uma desconfiança da parte de ambos.

– Agora poderá voltar a ser a deusa da vingança que os humanos tanto precisam. O mundo tornou-se injusto sem as suas sentenças. Tiqué, a deusa da fortuna, espalhou a sua sorte por toda a Hélade, tornando os mortais mais venturosos e egoístas. É necessário que volte e desfaça o que ela fez.

– Zeus, meu irmão… – Interrompeu o deus dos mortos, opondo-se entre os dois. – Vejo em seus olhos que diz a verdade sobre seus sentimentos, mas agora, Nêmesis tornou-se minha esposa e rainha do mundo dos mortos. Ela me auxilia nos julgamentos e suas sentenças são as mais corretas possíveis. Não poderá tomar uma decisão tão importante como essa agora. Por que não dê um tempo à moça?

– Hades… – Sussurrou o olímpico, ao perceber a presença do irmão. – Sei que estou em falta. Há tempos lhe prometi uma esposa e não dei nenhuma resposta. No entanto, ao ver a bela divindade em seus domínios, interessou-se por ela. Não o culpo por sentir-se atraído pela sua beleza. Mas a deusa da vingança não é a esposa destinada e você. Sinto muito, mas terá que se separar dela.

– O que?! Como ousa?! – Esbravejou o deus do submundo, ao ouvir tamanha afronta.

– Querido irmão, escute. Nêmesis é uma divindade olímpica. Sua vida se resume a aplicar juízo sobre os mortais e dar-lhes o que merece como consequência de seus atos. Não é à toa que é denominada “A inevitável” por ter sua sina ligada a dos humanos. Ela não pode viver no mundo dos mortos para sempre! Onde estará o equilíbrio da conduta humana sem Nêmesis a vingar e Tiqué a abençoar? Sei que cometi um grande erro punindo-a e levando-a até você, mas agora estou arrependido e quero o quanto antes reparar o meu erro. E isso inclui também a minha promessa. Confie em mim, por favor. Eu conversei com minha filha Perséfone e creio que ela lhe será uma boa esposa.

O deus dos mortos estava indignado com tamanha petulância. Como Zeus adorava brincar com os sentimentos dos outros! Sim, pois, para ele, essa história de lhe arranjar uma esposa já se tornou ridícula. E Nêmesis, então? Ou melhor, e as ninfas e mortais por quem ele se apaixona e ataca sem piedade, como fizera com a deusa? Não sentia mais orgulho pelo seu ato de nobreza em vê-lo arrependido, mas, sim, nojo e revolta.

A deusa continuava a manter-se em silêncio, processando com calma tudo que o governante olímpico lhe contara, mas não deixava de se sentir incomodada com o ser à sua frente.

– Zeus… – Suspirou, a voz quase inaudível, abafada pelo som da chuva. – Eu… Eu agradeço por ter vindo até aqui lhe pedir perdão por tudo. É muita gentileza de sua parte. Mas… Assim como Hades lhe falou, eu não posso dar uma resposta agora sobre voltar ao Olimpo. Agora sou esposa do deus dos mortos, julgo almas e auxilio na tomada de decisões.

O rei dos deuses encarou-os com desdém, deu de ombros e concluiu:

– Muito bem, faça como quiser. Mas não deixe que o destino arruíne sua felicidade. Sabe que não pode desafiar as Moiras, não sabe? Bom, os portões do Olimpo estarão sempre abertos a você. Ah, quase ia me esquecendo. A sua espada está comigo.

E de seu cinto fez aparecer uma espada reluzente de punho dourado e lâmina brilhante. Entregou-a como em uma cerimônia, repousada em suas mãos. A jovem pegou-a ainda atônita e alisou o fio de corte.

– Eu mandei afiá-la. Espero um bom uso quando voltar.

O deus, ao concluir suas sentenças, deu-lhes as costas e sumiu num piscar de olhos, sob uma faísca de relâmpago e o som de um trovão.

Capítulo 9