Escuridão – Epílogo

Escuridão – Capítulo 10
10/08/2017
Papo Lendário 166
Papo Lendário #166 – A Terra Plana
18/08/2017

Capítulo 10

Autora: Monica Ferreira

Reencontraram-se no verão, em um bosque. O Olimpo inteiro decidiu tirar um dia de descanso para refrescar-se numa cachoeira, levando consigo frutas e bebidas para uma tarde agradável. Zeus, Hera, Apolo, Ártemis, Atena, Dionísio, Afrodite e Hefesto, Poseidon e Anfitrite, Deméter e Perséfone, a nova esposa de Hades, rindo, feliz, junto à mãe.

Nêmesis estava mais afastada do grupo, acompanhada por Têmis, sentada numa pedra à margem do lago. Ambas eram idênticas, apenas a cor dos cabelos era diferente, sendo um castanho dourado o cabelo da deusa da justiça, e a outra o seu negrume habitual; além, é claro, da venda em seus olhos.

Usando vestidos negros de tamanho curto e com os pés imersos na água fresca, Conversavam sobre seus afazeres divinos. De vez em quando Nêmesis olhava para a moça atrás de si, e estudava cada traço que a tornara a nova rainha do submundo.

Tinha os cabelos loiros, a pele alva, os olhos negros. Havia nela outros atributos mais atrativos para os olhares masculinos, como os seios fartos e os quadris largos, algo que a deusa da vingança, admitia, não tinha em grande volume.

– Pare de olhar tanto, senão a moça desconfia. – Retrucou Têmis, ao sentir a inquietude da moça.

– Ela não sabe o que houve entre nós? Entre eu e… – Indagou a outra, sem parar de olhar.

– Claro que não. Zeus pediu sigilo absoluto, até para Hades.

A notícia da união dos dois não saía de sua mente, deixando-a desapontada. Não acreditava que o destino de ambos fora ligado da forma mais tola possível, culpa dos fios entrelaçados pelas velhas Moiras.

Após a partida de Nêmesis, Hades tornou-se implacável, julgando os mortos como bem lhe entendia, não como a causa determinava. Seu temperamento tranquilo dera lugar a um mais impaciente, não querendo nenhum contato com o mundo exterior, exceto por Hermes.

Um dia, porém, não aguentou mais esperar por uma resposta. Montou em sua carruagem e seguiu para o Olimpo. No caminho, avistou uma linda jovem colhendo flores junto com algumas ninfas. Apaixonou-se imediatamente e a raptou, levando-a para o seu mundo. Sem saber, a jovem que raptara era Perséfone, filha de Zeus e Deméter, a mesma que seu irmão lhe prometera.

A deusa da colheita, ao saber do rapto da filha, ficou desesperada, rodando pelo mundo numa busca infrutífera, até Hélios, o deus do sol, contar-lhe que Perséfone estava no submundo, e que tornara esposa de Hades.

Deméter, ao tentar buscá-la no mundo dos mortos, soube que ela não poderia mais voltar, não da forma como gostaria. O deus dos mortos a fez ingerir seis sementes de romã, fazendo com que a jovem permanecesse para sempre no submundo. A lei da permanência, para a qual Hades abrira uma exceção para Nêmesis, fora aproveitada em Perséfone.

Zeus decidiu, então, que a moça ficaria na companhia da mãe durante seis meses, na primavera e no verão, e seis meses no submundo, no outono e inverno. Assim, não haveria desavenças entre mãe e filha, sogra e genro.

Apesar de tudo, não sentia mais raiva ou mágoa do deus. Nutria apenas um grande carinho, uma amizade renascida, aquela de quando eram apenas dois deuses julgadores convivendo um com o outro e conhecendo-se melhor.

Levantou-se e seguiu em direção a uma floresta próxima, deixando Têmis sozinha.

– Aonde vai? – Perguntou a deusa da justiça, ouvindo a moça afastar-se.

– Vou andar um pouco. Não demoro.

E embrenhou-se pela mata. Pisando em folhas e galhos secos, avistou uma poça d’água, provavelmente surgida de uma chuva recente. Olhou-se com cuidado para não deformar a superfície, vendo as maçãs do rosto rosadas e os lábios vermelhos de sol, nem de longe lembrando a palidez mórbida do mundo inferior.

Começou a pentear os cabelos com os dedos, desembaraçando as pontas lisas, quando viu uma sombra aproximando-se lentamente, do outro lado da clareira. Levou um susto, pensando tratar-se de um animal, mas quando viu quem era, acalmou-se.

– Hades?! Que faz aqui?!

O deus apenas sorria, chamando-a para que fosse até ele. Ela não foi. Ficou temerosa em ser surpreendia por alguém ou por Têmis e ter que se explicar mais uma vez.

– Há quanto tempo… – Sussurrou, o semblante pesado dera lugar a um mais alegre, radiante. – Está tão bonita…

– Obrigada. – Respondeu, encabulada. – Que está fazendo aqui?

– Soube por Hermes que os deuses estavam se divertindo neste bosque e decidi conferir pessoalmente. Pena que não posso partilhar deste momento, mas o importante é que ela está muito feliz. Não quero arruinar os momentos dela com Deméter.

Nêmesis sentiu uma ponta de ciúmes ao vê-lo falar da nova companheira, mas não demonstrou. Pelo contrário, estava mais interessada em perguntar-lhe sobre a sua vida, se estava feliz por viver ao lado dela, mesmo que por um curto período do ano, mas logo desconsiderou. Seria muita indiscrição de sua parte.

Uns poucos passos foi o suficiente para ambos manterem-se frente a frente um ao outro, a distância medida apenas pela poça irretocável como um espelho d’água. Pegou em sua mão. Sentiu a mesma maciez de tempos atrás e um desejo de beijá-la tomou o seu corpo, sendo impedido por Nêmesis, que recuou.

– Para falar a verdade, eu também tinha vontade de vê-la, reencontrá-la. Ver se estava bem… – Confessou, o olhar sereno revelando uma imensa tristeza. – Sinto tanto a sua…

– Chega, Hades. Não podemos retomar o que nos foi tirado. O que vivemos foi lindo, mas foi apenas uma ilusão. Não era para acontecer. Nunca foi.

Soltaram as mãos. Nêmesis estava determinada em não mais se machucar e, principalmente, em machucar os outros. Um ódio repentino tomou conta do deus devido a essas palavras, mas respirou fundo e também recuou.

– Desculpe. – Pediu a deusa.

Ele não insistiu. Deu meia-volta e sumiu por onde veio, deixando uma escuridão descer na clareira, com o sol entre nuvens. Um vento frio soprou nas copas das árvores, levando a despedida de ambos. Três folhas boiavam na pequena poça.

Nêmesis olhou pela última vez para o lugar por onde Hades tinha surgido. Olhou para as árvores em volta, tão parecidas com as árvores do submundo… Por um momento, sentiu-se como se estivesse lá, andando pelo bosque, conversando com ele, rindo com ele… Até encontrar Mentes ou as Erínias para lhe dizer bobagens.

Nunca imaginou que pudesse lembrar-se delas. Lembrar-se com carinho de seres tão desprezíveis relegados ao esquecimento por homens e deuses, mas que despertavam em sua alma adormecida pela mágoa e pela culpa, uma fagulha de energia e felicidade.

Deixou umas lágrimas escaparem pelo rosto, enxugando-as rapidamente. A escuridão se dissipara. E voltou para junto dos seus.

FIM