O Mito Heróico: Compreendendo as Múltiplas Variáveis na Construção da Imagem do Herói

Dos Espíritos de Fogo
23/02/2017
Escritos Lendários: Kalciferum
04/03/2017
[b]O mito heróico: compreendendo as múltiplas variáveis na construção da imagem do herói[/b]
Graduando Rodrigo Santos M. Oliveira1

O estudo e o entendimento do que seja o mito não pode ser tratado como algo estável e paralisado pela ação do tempo. Percebemos que este, se desloca de maneira atemporal, modificando-se de acordo com a sociedade que o narra. Através deste pensamento desenvolvemos este texto, para podermos compreender a formulação mítica que origina o caráter do herói. Escolhemos para a realização deste projeto o herói Perseu, o qual iremos analisar, demonstrando os principais acontecimentos dentro de sua jornada iniciática.

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O mito se reinventa de maneira constante e perceptível, sendo esta característica a responsável pela sua propagação e manutenção ao longo do tempo. Através desta idéia, tentaremos discorrer acerca do processo mítico que a narrativa heróica sofre, e ainda o papel do herói na formação do pensamento do “homem antigo”. Apoiaremo-nos em duas bases teóricas que se assemelham, mas que apresentam algumas características diferenciadas: a primeira será a do autor Junito de Souza Brandão contida em sua obra “Mitologia Grega: Volume III”, e a segunda de Joseph Campbell abordada em seu livro “O herói de mil faces”, ambos discutindo sobre a formação de uma concepção do que seja o herói. O mito escolhido como pano de fundo da discussão que realizaremos será o do herói Perseu, pois este é um modelo heróico que mostra, se não todas, grande parte das características levantadas pelos dois autores, na construção de um modelo heróico.

Iniciaremos este trabalho tentando entender o que é o mito e o que ocorre durante sua formação, pois não podemos aprofundar na discussão que estamos propondo sem antes conhecer a base das diversas formulações teóricas que serão apresentadas neste trabalho. Em uma análise superficial acerca do que seja o mito, sabemos que, de acordo com Walter Burkert (1991), este se mostra como uma “forma de relato tradicional estruturado numa seqüência de ações executadas por ‘agentes’ antropomórficos, sendo a modalidade mais remota e difundida de ‘falar dos deuses” no mundo antigo, com suas raízes na tradição oral’. Observamos nesta colocação, a importância da oralidade para o “homem antigo”. Os relatos orais serviam como objetos indiscutíveis para a formação e compreensão da sociedade. O mito torna-se fruto destes relatos, designando “uma história sagrada” (ELIADE, 2000, p.11) que realiza uma narrativa iniciada em tempos primordiais, manifestando uma realidade que passa a existir. Devemos entender que o mito apresentado formulou-se de uma constante variável, ou seja, não houve uma formulação chave que desencadeou a aparição do mito e sim suscetíveis modificações ocorridas pela oralidade, comportando-se então como a suma dessas variantes. A origem dos mitos se dá pelos relatos orais que unidos formam um corpo, ou seja, o próprio mito.

O mito sobrevive apenas se continuar a ser contado. Enquanto o relato poético não se modifica com o passar do tempo, o mito se transforma de acordo com os autores e o tempo, possibilitando a compreensão da “realidade” vivida pelo grupo que ouve e que conta essa nova formulação mítica. Há diferentes tipos de relatos, de acordo com Vernant (2000), que devem ser entendidos para compreender qual o papel do mito nas sociedades antigas. O primeiro apresentado é o relato histórico que possuí em sua constituição o compromisso com a verdade, ou seja, narrar apenas o “real”. O relato literário, por sua vez, é formado a partir da utilização da ficção “fantástica” e sua formulação se dá através do talento de seu criador. Por último temos o relato mítico que é construído pela transmissão e pela memória, por ser uma narrativa primordial, de tempos remotos, nos quais não havia autores. A mitologia não é literatura e sim experiência histórica, já que necessita ser contextualizada.

Os mitos não são apenas relatos. Contém tesouros de pensamentos, formam linguísticas, imaginações cosmológicas, preceitos morais etc. (VERNANT, p.16). As perguntas sobre o que havia antes de existir algo, os gregos responderam através dos mitos. Este se mostra como uma janela para a compreensão da sociedade, pois podemos detectar traços sociais em sua composição, no comportamento das divindades, que espelham a realidade vivida pelos seus autores.
Discernimos neste momento, três conceitos chaves para a compreensão do mito: Oralidade, Memória e Tradição. Como o primeiro conceito já foi abordado anteriormente na questão de sua inserção na formação mítica, trataremos, por tanto, apenas os dois últimos. A memória se torna importante para a compreensão do mito, pois esta é compreendida a partir de um escrito, ou através da oralidade, empregando em sua concepção um caráter ideológico, ou seja, a vontade de um grupo. Como bem define Halbwachs (1990), a memória é formada por um grupo e sua interpretação dos fatos, portanto, pelas suas lembranças, as quais formam o que o autor denomina de memória coletiva. Verificamos desta maneira que o mito se comporta como resultado desta memória: a formação da narrativa mítica se dá pela impressão de seu criador, pelas lembranças e pela conjuntura em que vive.

Desta maneira, a memória tenta resgatar o que foi produzido na tradição. Mas o que seria essa tradição? Utilizaremos da idéia de construção coletiva de costumes e práticas, que ao serem realizadas ou/e seguidas como referência tornam-se modelo tradicional. O mito utiliza-se da tradição do grupo em que foi cunhado, sendo a memória inerente na formação mítica. A tradição ritualiza certos acontecimentos e costumes, realizando desta maneira a junção da memória com o mito, sendo que estase modifica atendendo os anseios e necessidades expressivas do grupo em que ocorre sua formulação.

O mito mostra-se a partir das variantes, sendo que suas formas de expressão não se encontram apenas ligadas aos relatos religiosos, de acordo com Junito (1995), mas também às literaturas, poesias e artes figurativas, consideradas pelo autor como formas profanas. Esta afirmação nos é contestável, pois não podemos definir estas formas artísticas como de algo profano, sendo que a religião é intrínseca a formação do homem antigo clássico, dentro de todas as instâncias sociais. As artes também tinham sua porção religiosa, o que não as permite ser separadas pela categoria de profanas e sagradas no mundo antigo.

Porém há outra separação, na qual o mito se encaixa, de acordo com Eugênio Triás (2000): O que seria religio e superstitio? A expressão religio, dentro do Império Romano, se liga a idéia de culto oficial, sendo a religião a ser seguida, na qual, devem ser feitos os cultos e ritos necessários para responder às exigências divinas. Já a superstitio simboliza a “superstição”, produzida pelo processo de helenização, sendo a mitologia encaixada dentro desta idéia. Porém o mito reflete a religião, mas não a segue formalmente, já que sua produção é bem anterior à formação de cultos institucionalizados.

Observamos então que o mito possui uma característica funcionalista, qual seja, de fundamentar “os usos e as normas básicas do convívio, propondo uma justificação narrativa tradicionalmente aceita por todos”, pois de cumprir nas culturas antigas “uma função indispensável; expressa, acentua e codifica a crença; protege e reforça a moral; vigia a eficiência do ritual e de certas regras práticas para a orientação do homem” (GRIMAL, 2000). O mito, então não seria apenas uma fábula, e sim um modo pragmático de compreensão social privilegiadora da sabedoria moral. Além disso, a mitologia adquire um caráter simbólico realizando uma contraposição entre fantasia e realidade, pois o mito torna-se representação do real. Então classificamos que há uma materialização do imaginário, enquanto estrutura mental, na formação do mito, pois este imaginário, utilizando-se de uma imagem representativa do real, muitas vezes se reporta aos interesses sociais de certo período. Assim como aponta José D’ Assunção Barros (2004), o imaginário pode se transparecer a partir de um interesse ideológico:

[b]as imagens, as cosmovisões e os símbolos podem ser produzidas também por circunstâncias políticas, por necessidades sociais e até locais, por artimanhas da poesia e da literatura, por arquitetura política pensada ou intuída, ou podem mesmo ser ocasionadas por grandes eventos que caem como raios na vida das sociedades. (ASSUNÇÃO, p. 97, 2004)[/b]

O mito então, “não fala senão naquilo que começou realmente, naquilo que se manifestou completamente, as personagens do mito são seres sobrenaturais” (ELIADE, 2000).

A compreensão do que seja o mito, nos faz avançar para o entendimento da narrativa mítica do herói. Seu nascimento, sua jornada e a conclusão de sua “missão” fazem parte do processo de formação do mito, sendo o herói protagonista entre os homens. Como mostra Hugo Francisco Bauzá (1998), o herói demonstra algumas características particulares que o destacam do restante dos seres humanos. Utilizaremos a descrição sobre o herói que Brandão (1995) faz baseado nos estudos de Rank, no qual é criada uma “lenda-padrão do herói”:

[b](…) o herói descende de ancestrais famosos ou de pais da mais alta nobreza: habitualmente é filho de um rei. Seu nascimento é precedido por muitas dificuldades, tais como a continência ou a esterilidade prolongada, o coito secreto dos pais, devido à proibição ou ameaça de um Oráculo, ou ainda por outros obstáculos (…). Transcorrida a infância, durante a qual o adolescente, não raro, dá mostras de sua condição e natureza superiores, o ‘futuro herói’ acaba descobrindo, e aqui as circunstâncias variam muito, sua origem nobre. Retorna à sua tribo ou a seu reino, após façanhas memoráveis, vinga-se do pai, do tio ou do avô, casa-se com uma princesa e consegue o reconhecimento de seus méritos, alcançando, finalmente, o posto e as honras a que tem direito. (…) o fim do herói é comumente trágico. (BRANDÃO, 1995, p. 21)[/b]

Como podemos notar, é construído pelo autor um modelo de herói, mas sem ignorar as variantes existentes, sendo que algumas características não permanecem em todos os exemplos heróicos. O caminho do herói mostra-se cheio de nuanças, pois este sofre com a missão que lhe foi confiada, sendo, desde o nascimento, aguardado para cumprir uma profecia. O herói segue um processo durante sua peregrinação que compreende em se separar do mundo, penetrar em alguma fonte de poder e em seguida retornar à vida, pois desta maneira todos poderão usufruir de suas conquistas. Além disto, procedimentos como, corte de cabelo, mudanças de nome, catábase ao Hades tornam-se parte do caminho iniciático do herói para que este receba a glória. Muitos autores comparam a jornada do herói em busca de sua ascensão com o caminho que o jovem passa para atingir a fase adulta, pois alguns procedimentos se entrecruzam. Ocorre desta maneira, a maturação do herói da mesma forma que a jornada empreendida pelo jovem o amadurece e o fortifica deixando-o apto para a vida adulta. A peregrinação heróica lhe deixa preparado para receber a recompensa pelos seus feitos.

Ao longo de seu percurso, o herói sofre com as diversas provas que lhe são incumbidas, geralmente pelas divindades, sendo estas necessárias para a realização de sua ascensão. Este personagem mítico está ligado às lutas (trabalhos) mais do que as divindades, pois correm riscos reais de morte, enquanto os deuses apenas sofrem feridas que são facilmente curadas. Geralmente, o herói luta contra monstros, feras, bandidos, sendo estes grandes desafios à provação heróica, pois ele “é uma personagem especial, que sempre deve estar preparado para a luta, para os sofrimentos, para a solidão e até mesmo para as perigosas catábases à outra vida” (BRANDÃO, 1995, p.51).

A última fase pela qual o herói passa se baseia na sua morte, ou seja, na sua queda ao Hades, realizando a mortificação ritualística que se compreende na absoluta solidão. A morte lhe concede a condição que tanto busca, pois a partir dela, o herói adquiri sua forma sobre humana. O herói se torna um intermediário entre os homens e os deuses, não se comparando ao status divino por não ser imortal, mas possuindo ação mesmo depois de morto: “A morte simbólica do herói converte-se, por assim dizer, na consecução da maturidade” (BRANDÃO, 1995).

Joseph Campbell, grande pensador, realizou uma profunda interpretação, com base na psicanálise, do mito do herói, tendo como referência C. G. Jung. Em seu livro “O herói de mil faces” Campbell constrói um arquétipo heróico, selecionando as variáveis e realizando um trabalho, no qual, edifica a imagem do herói. Sua tese principal reside no entendimento de que “o herói simboliza nossa habilidade para controlar o animal irracional que habita em nós” (CAMPBELL, p.15-16). O próprio Junito se baseia nos estudos que Campbell realiza, por isso observamos que os dois autores têm idéias semelhantes acerca do mito heroico.

O exemplo que utilizaremos para perceber todo este processo será o do herói Perseu. Este tem origem argiva e tem como antepassado outro herói: Héracles. É filho de Zeus e por parte de mãe descende de Dánao e de Egisto. Como destacado anteriormente, o nascimento de Perseu é previsto pelo oráculo que fala ao seu avô, Acrísio, sobre o risco de morte que corria com o nascimento de seu neto. Para se prevenir, Acrísio prende sua filha, Dânae, em uma câmara de bronze subterrânea. Porém esta medida não é o bastante, pois Zeus em forma de chuva de ouro penetra na câmara e engravida Dânae. Junito analisa essa passagem da seguinte forma:

[b]No tocante à chuva de ouro com que Zeus fecundou a Dânae, trata-se, simbolicamente, do esperma de Céu, fecundado a Terra: um hieròs gamos, um casamento sagrado, que se transforma num thaleròs gamo, numa ‘união fértil’, uma ‘conjunção amorosa’ entre um deus fecundador, Zeus, e uma grande mãe, Dânae. (BRANDÃO, 1995, p.80)[/b]

Além desta interpretação do mito, Grimal (2000), coloca que a simbologia desta chuva de ouro designa a beleza e o apreço que este exercia nos homens, sendo o ouro capaz de “de abrir as portas mais aferrolhadas”. Após descobrir que havia nascido seu neto, Acrísio, prende Dânae e Perseu em uma urna de madeira e os joga ao mar. Outra analogia foi realizada por Junito com esta passagem: a arca se destaca como formadora do herói, quando comparada ao útero materno que gera a criança e a fortifica, preparando-a para a vida. Ao sair da urna, o herói esta pronto a viver sua independência alcançando a fase adulta, assim como o filho que se desprende dos laços maternos.

Perseu é resgatado por um pescador, Díctis que o cria até se transformar em um jovem valente. Quando já estava grande, Perseu foi mandado para sua primeira missão: arrancar a cabeça de Medusa e traze–la ao rei Polidectes. O herói é auxiliado pelas Gréias e por divindades (Hermes e Atena), conseguindo completar sua missão. Outra característica que podemos destacar do percurso heróico é a ajuda que este tem de seres superiores. As provações que ele passa são amenizadas e auxiliadas pelo poder divino. No caso de Perseu, o herói recebe sandálias com asas, uma alforje, o capacete de Hades e a espada afiada de Atena. Ao cortar a cabeça da Medusa brotaram do sangue Pégaso e o gigante Crisaor.

Voltando de seu trabalho, Perseu passa pela região de Etiópia onde encontra Andrômeda acorrentada a uma grande rocha. O herói apaixonado por ela se dispõe a salva-la e sem grandes dificuldades, com o auxílio das armas mágicas que possuía, destrói o monstro. Como sua recompensa, Perseu exige Andrômeda em casamento, porém isto causaria uma contrariedade, já que Fineu, tio de sua amada, também a queria em casamento. O herói utiliza a cabeça da Górgona e petrifica todos os seus inimigos, indo para Serifo acompanhado de Andrômeda. Ao chegar, e se deparar com o desespero de sua mãe que fugia das investidas do rei Polidectes, Perseu utiliza mais uma vez a cabeça da Górgona e petrifica todos os seus inimigos, dando o reino para Díctis, o pescador que o salvou. Após isso, o herói devolve as armas que conseguirá e entrega a cabeça de Medusa para Atena que a põe em seu escudo.

O herói passa então por todas as provações e consegue a recompensa divina no final de sua jornada. O modelo heróico construído pelos mitólogos abrange todas estas passagens sendo o herói, assim como já explicitado, um modelo social, seguido e almejado pelos grandes líderes, da Antiguidade Clássica até a Contemporaneidade.

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[b]Notas[/b]
1Orientando da Profa. Dra. Ana Teresa M. Gonçalves, desenvolve pesquisa na área de História Antiga desde 2008. Integrante dos grupos de pesquisa LEIR e NEMED. Contato: [email protected]

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[b]Referências Bibliografia[/b]:

• Fonte:
APOLODORO. [i]Biblioteca[i]. Tradução de Margarita Rodríguez de Sepúlveda.

• Bibliografia Geral:
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_______________. [i]Religião Grega na época clássica e arcaica[/i], Lisboa: 1993.
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TRÍAS, Eugenio. Pensar a religião: o símbolo e o sagrado. In: DERRDA, J.; VATIMO, G. (Org.). [i]A Religião[/i]. São Paulo: Estação Liberdade, 2000
VERNANT, Jean Pierre. [i]O universo, os Deuses e os Homens[/i]. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.